A Terra treme,
(La Terra Trema)
de Luchino Visconti
(1948)

 

Eixo Temático

Em seu processo de desenvolvimento sócio-metabólico, o capitalismo constitui a alienação do trabalho vivo e da força de trabalho dos meios de produção da vida material. É o que podemos denominar de proletarização do trabalho e constituição da condição de proletariedade. É no interior desta condição de proletariedade que se pode constituir (ou não) a classe do proletariado e a consciência de classe contigente e necessária. Todo trabalhado assalariado pressupõe uma precariedade que decorre desta alienação estrutural que funda a condição de proletariedade. No processo histórico de luta de classe, o trabalho vivo pode conquistar melhores salários e condições de trabalho, além de direitos sociais que colocam obstáculos à sanha de valorização do capital. Mas sob determinadas circunstâncias históricas, a ofensiva do capital pode debilitar e degradar salários, condições de trabalho e direitos da classe trabalhadora obtidos no decorrer da luta de classes. É o que podemos denominar de processo de precarização do trabalho que tende a constituir uma nova institucionalidade para a exploração da força de trabalho (o que podemos denominar de nova precariedade do trabalho).

Temas-chaves: trabalho, capitalismo, proletarização, estranhamento, precariedade e precarização do trabalho.

Filmes relacionados: “Vinhas da Ira”, de John Ford; “Ladrões de Bicicleta”, de Vittorio De Sica; “Segunda-Feira Ao Sol", de Fernando León de Aranoa.

Análise do Filme

O filme de Luchino Visconti, “A Terra Treme”, de 1948, expõe com vigor neorealista, aspectos da proletariedade de trabalhadores do mar, pescadores da cidade de Acitrezza, litoral da Sicília (Itália), uma das regiões mais pobres do País (inclusive, nos créditos do filme a interpretação principal é dada aos pescadores sicilianos). Revoltado com a exploração dos comerciantes de peixe, o jovem ‘Ntoni tenta convencer seus colegas pescadores a trabalhar por conta própria. Se em “Vinhas da Ira”, John Ford nos mostra o drama da proletarização e da proletariedade extrema de catadores de frutas nas fazendas capitalistas da Califórnia; e em “Ladrões de Bicicleta”, Vittorio De Sica nos mostra uma crônica trágica da proletariedade de um recém-empregado como colador de cartezas que tem a sua bicicleta, seu instrumento de trabalho e condição de emprego, roubada, o cineasta Luchino Visconti expõe, em “A Terra Treme”, outra crônica trágica da proletariedade de trabalhadores do mar, super-explorados pelos comerciantes de peixes na Sicília (Itália), que anseia contornar a exploração da força de trabalho através do trabalho por conta própria.

Luchino Visconti trata em “A Terra Treme”, de um anseio contingente do proletário que vê como saída para sua condição alienada, tornar-se pequeno proprietário. O anseio pela emancipação do trabalho alienado ocorre através da saída individual (ou familiar) de ‘Ntoni que almeja tornar-se proprietário de seus meios de produção. É ele que irá representar um anseio contingente (e limitado) de parcela de trabalhadores proletários. Ao fracassar em seu intento, ‘Ntoni demonstrará que não apenas o mar é amargo, mas o mercado é cruel. Ele não perdoa aqueles que ousam enfrentar os elementos da ordem estrutural do capital. Os Valastros são amaldiçoados pelo destino, porque ousaram pensar de forma diferente e enfrentar, sozinhos, o mundo da injustiça social e da dominação do capital.

O filme contém, mais do que os demais filmes em análise, uma mensagem ideológica: não há saída para aqueles que almejam por si só enfrentar a ordem capitalista e os constrangimentos do mercado. O fracasso dos Valastros é, de certo modo, o fracasso da ideologia do empreendendorismo que ilude os proletários com a idéia do trabalho por conta própria como saída para a supereexploração da força de trabalho e mesmo do desemprego.

É claro que em “A Terra Treme” a busca pelo trabalho por conta própria ocorre numa situação de contornar a exploração estranhada e não de enfrentar o desemprego em massa. Naquela etapa de desenvolvimento capitalista, a promessa do emprego continha em si, para largos contingentes do mundo do trabalho, elementos de superexploração e de degradação do trabalho. N’toni Valastro buscou o trabalho por conta própria não porque estivesse desempregado, mas porque se sentia indignado com a superexploração da força de trabalho. Ao invés de constituir uma organização sindical e política para enfrentar a dominação do capital (o que, nas condições de uma região atrasada do Sul da Itália, dominada pelo poder truculento da oligarquia local, era deveras temerário), optaram pela saída pequeno-burguesa: montar um pequeno negócio. É o que muitos hoje buscam através do empreendendorismo, não para contornar, muitas vezes, a superexploração do trabalho, mas sim, como alternativa ao desemprego estrutural e de massa. Nesse caso, tornam-se patrões de si mesmo, como os Valastros.

Na abertura do filme temos a seguinte mensagem: “Os fatos deste filme ocorrem na Itália, precisamente na Sicília, na cidade de Acitrezza, perto de Catania. É a velha história da exploração do homem pelo homem. As casas, as ruas, os barcos e o povo são de Acitrezza. Todos os atores foram escolhidos no meio do povo: pescadores, lavradores, pedreiros e mercadores. Usam seu dialeto para expressar sofrimento e esperança, pois na Sicília o italiano não é a língua falada pelos pobres.”

No decorrer do filme uma voz narra os acontecimentos do cotidiano da família de pescadores pobres dos Valastros. Na abertura, o sino da Igreja de Acitrezza avisa ao alvorecer a chegada dos pescadores do mar, depois de uma noite de trabalho. A primeira tomada é da Igreja imponente da pequena vila de Acitrezza. A Igreja quase que olha para o mar. Uma voz exclama: “Desta vez o mar foi generoso”. Diz o narrador: “Como sempre, os primeiros a iniciar o dia em Trezza são os mercadores de peixe que vão para o mar quando o sol ainda nem nasceu. Porque, como toda noite, os barcos foram para o mar e retornam ao amanhecer com a parca pescaria. Quando há peixe é possível sobreviver em Trezza. De avô para pai e para filho sempre foi assim.” Alguém diz: “Foi uma boa pescaria”.

O narrador do filme nos apresenta os elementos constitutivas da narrativa de “A terra treme”. Num primeiro momento, a dimensão da produção social. O fundamento material do ser social de Acitrezza é o trabalho, isto é, o trabalho de pesca, executado de forma artesanal, pelos proletários do mar.

Num segundo momento, Visconti apresenta as habitações rústicas da cidade, o lar dos proletários pobres de Trezza. Surge uma casa com destaque, a dos Valastros. Diz o narrador: “Uma casa como tantas outras, construídas com pedras. Suas paredes são tão antigas quanto a profissão de pescador. A esta hora, bem cedo, a casa acorda. É a casa dos Valastro.” Os homens da casa foram trabalhar no mar. Em casa, logo ao amanhecer, em sua faina cotidiana, surgem as mulheres da casa, trabalhadoras do lar, fazendo a faxina do espaço doméstico.

É interessante observar que, primeiro, Visconti apresenta o trabalho; depois, a casa, a instância sócio-reprodutivo, descrevendo seus elementos materiais (as pedras antigas que a constituem as paredes, etc) e seus elementos humanos: as mulheres que fazem a faxina da casa dos Valastros. Diz o narrador: “Enquanto trabalham, as mulheres pensam em seus homens que retornam do mar, porque sempre há um barco no mar desde os primeiros Valastros. Pensam no avô, no irmão e também no pai que certa manhã não voltou do mar.”
O elemento humano é constituído de memória. A cena em que Lucia interrompe um pouco a faxina para vislumbrar uma fotografia na parede é oportunidade para conhecermos a família Valastro. É interessante que, é através de um quadro de fotografia familiar com conhecemos os Valastro. São as mulheres da casa que nos apresentam pela primeira vez os homens da família, trabalhadores do mar, aqueles que sustentam o lar. Como diz o narrador: “Pensam no avô, no irmão e também no pai que certa manhã não voltou do mar”. A irmã mais velha pergunta a Lucia: “O que está olhando?” E ela responde: “Nossos irmãos. Sempre penso neles, como pensava no papai no dia que ele não voltou”. É Lucia que fica relembrando os tempos inscritos nas fotografias que guardam boas recordações.

A fotografia é um referente de memória da família, que nos projeta noutro espaço-tempo. Diz Lucia: “Lembra da foto que tiramos em Catania? Veja N’toni no uniforme de marinheiro. Cola e Vanni usando a primeira calça comprida. Alfio e vovô. Estão todos no mar. O mar é amargo”.

 


Através da fotografia familiar, tirada em tempos idos na cidade grande, em Catania, Lucia evoca, por um breve momento, as lembranças do passado (um detalhe: N’toni prestou serviço militar na Marinha. Por isso, está com uniforme de marinheiro). E logo a seguir, a memória da família se confunde com o mundo do trabalho, que é parte íntima deles, da família Valastro. Lucia diz: “Estão todos no mar” e a seguir a frase: “O mar é amargo”, expondo a dura luta pela existência dos Valastro, através de uma atividade que não apenas é extenuante em si, mas que expõe elementos de uma aguda exploração da força de trabalho dos pescadores. A frase “o mar é amargo” possui, deste modo, um duplo sentido: um sentido natural, da natureza inóspita que se impõe sobre homens que tiram dela seu sustento (é a dimensão do trabalho como objetivação/exteriorização ou alienação, no sentido positivo); e um sentido social, do processo de trabalho estranhado, onde os proletários do mar são alienados do produto de sua atividade dura e extenuante.

Até agora, Visconti nos expôs o trabalho em si, a família Valatro e suas memórias, através da reminiscência das mulheres. Depois, temos um corte da casa para uma tomada ampla dos pescadores na praia, recolhendo seus instrumentos de trabalho e o produto de sua atividade. É uma tomada panorâmica que expõe o trabalho coletivo dos pescadores. É um conjunto complexo de homens, jovens, adultos e crianças, imersos em suas tarefas após a pescaria da madrugada. É um trabalho exclusivamente masculino. O contraste entre a imagem da Igreja ao fundo, e o complexo de trabalho que se instaura na beira do mar, expõe, por um lado, a ampla (e complexa) divisão do trabalho, e por outro, laços tradicionais que marcam aquela comunidade de pescadores, embora a presença da Igreja só ocorra no filme através do tilintar do sino.

“Cuidado vão rasgar as redes”, diz alguém, talvez um supervisor do grupo de trabalho que acompanha os pescadores nesta etapa. Os pescadores recolhem as redes, seus instrumentos de trabalho. E depois, retruca mais uma vez mais o supervisor: “Cuidado com os barris”. Ele se preocupa com os instrumentos de trabalho e com o produto da pescaria, as anchovas, que devem ser recolhidas em barris. A seguir, a voz do narrador nos introduz, pela primeira vez, no universo da insatisfação com o regime de trabalho.

O trabalho dos pescadores é um trabalho estranhado. Diz a voz: “‘O mar é amargo’, disse Lucia. E o trabalho também, já que o lucro é dos mercadores. É preciso pagar os homens, remendar as redes e fazer a manutenção dos barcos. Todas as despesas recaem nos ombros dos pescadores enquanto so atacadistas enriquecem sem fazer força, comprando por nada o peixe pescado com tanto suor.” Eis, pela primeira vez, no filme, a exposição da exploração da força de trabalho na comunidade de pescadores de Acitrezza. Após expor através de imagens, o trabalho em si, o lar e a memória, volta-se para a apresentação do trabalho e se destaca o que há por trás da amargura do mar. Como salientamos, não é só mar que é amargo, devido a natureza do trabalho do pescador que investe tanto suor para enfrentar a natureza indômita do mar; mas o trabalho é amargo tendo em vista que o trabalho é atividade estranhada, quase uma segunda natureza que se impõe há séculos aos homens.

Como se disse na abertura do filme, “É a velha história da exploração do homem pelo homem.” O trabalho dos pescadores é trabalho estranhado por que o lucro, isto é, o excedente, é dos comerciantes e não dos trabalhadores do mar. A frase é forte: “Todas as despesas recaem nos ombros dos pescadores enquanto os atacadistas enriquecem sem fazer força, comprando por nada o peixe pescado com tanto suor”.

Eis a síntese da exploração da força de trabalho na indústria da pesca em Acitrezza. Os trabalhadores não têm a propriedade (e o controle) dos meios de produção. Eles não são proprietários dos barcos, embora os instrumentos de trabalho - redes e outros apetrechos utilizados no trabalho de pesca sejam deles. Aliás, os custos da manutenção dos barcos, remendo das redes e gastos com auxiliares de pesca são atribuídos a eles. Os pescadores são obrigados a vender para os atacadistas – provavelmente os proprietários dos barcos – o produto da pescaria, os peixes, há um preço ínfimo, Os atacadistas, como diz o narrador, compram por nada o peixe pescado com tanto suor. Depois os atacadistas revendem o peixe em Catania, garantindo um grande lucro. Eis, portanto, o esquema de exploração que produz e reproduz a miséria dos pescadores de Acitrezza.
Ao remendar as redes na beira do mar, logo pela manhã, após a noite de trabalho, os pescadores conversam. Diz Cola, um dos Valastro: “Isso rasgou tudo. Isso vai levar um mês”. N’toni observa: “Acha que os chefes se importam?” É o jovem N’toni Valastro que introduz a dimensão das classes, da hierarquia social, da exploração de classe e da luta de classe. Em sua primeira fala, N’toni expressa ser o portador da consciência de classe contingente entre os pescadores. É sobre ele que recairá a perseguição cruel das relações de poder do capital. É N’toni que se interroga: “Acha que os chefes se importam?”. Sua critica dirige-se aos chefes, personificações do trabalho estranhado e do capital. E diz: “Somos burros. Só servimos para o trabalho pesado.” Outro pescador observa: “Eles nem olham o que pescamos”. N’toni sugere: “Devíamos vender os peixes em Catania em vez de enriquecê-los”. Cola, irmão de N’toni, observa: “Você os ouviu discutindo enquanto descarregávamos? Era sobre nós”. Outro pescador faz uma observação espirituosa: “Não se engane. Era sobre nós... era contra nós. Estão sempre unidos contra nós”. E N’toni completa: “Somos nós que não discutimos. É cada um por si, se vendendo por um tostão”.

O que N’toni destaca, neste caso, é que o capital tem o poder, porque os trabalhadores do mar não se unem, não discutem o problema da exploração do trabalho. O capital que nos oprime é nosso próprio poder social alienado, que se volta contra nós. N’toni sugere a necessidade de romper com o individualismo crassante, o “cada um por si, se vendendo por um tostão”. Enquanto os trabalhadores se mantiverem imersos na consciência cotidiana, no individualismo que não reflete (e discute) o problema da exploração do trabalho, continuarão sendo meros burros de carga do capital. A cena se conclui com Cola, cabisbaixo, observando: “Não devia ser assim”.

É interessante que, neste momento, N’toni expressa uma consciência sindical propriamente dita. Entretanto, mais tarde, ao invés de organizar uma associação de pescadores para barganhar melhor preço para a força de trabalho e melhores condições de trabalho, decide constituir um negócio familiar por conta própria.

Esta primeira cena da praia expõe que, no decorrer do processo de trabalho, os trabalhadores explorados conspiram contra seus patrões exploradores (como no filme “A Greve”, de Serguei Eiseinstein). A consciência de indignação contra a exploração do trabalho nasce no interior da própria atividade do trabalho estranhado. Ao costurarem as redes rasgadas no decorrer da pescaria da madrugada, os trabalhadores do mar discutem e socializam sua indignação. É claro que há um trabalhador que expressa, através de sua fala, o máximo de consciência possível de classe daquele coletivo proletário. É o caso de N’toni Valastro. Aos poucos, apreendemos o sistema de exploração em que estão imersos os pescadores artesanais de Acitrezza. Na verdade, é uma exploração que se realiza, como salientamos acima, no processo de circulação. Isto é, a exploração se manifesta quando os produtores vendem no leilão de peixes em Acitrezza, para os mercadores, o produto do trabalho a um preço inferior àquele que vale; e também, quando são obrigados a arcar com os custos de manutenção do meio de trabalho (os barcos), além é claro, de terem que pagar um aluguel por ele. Ora, o que sobra para os pescadores é muito pouco.

 

É interessante uma análise do modo de exploração do trabalho dos pescadores em Acitrezza. Ele se distingue, por exemplo, da forma de exploração do servo feudal e da forma de exploração do trabalhador assalariado propriamente dito. É uma exploração que se manifesta, por exemplo, através da troca desigual e dos custos diretos (aluguel) e indiretos (de manutenção) dos meios de trabalho que recaem sobre os proletários do mar. Na verdade, o mundo social de Trezza é um mundo de vendedores de produtos-mercadorias (logo no inicio do filme, crianças vedem frutas buscanbdo obter alguma renda em dinheiro). Os produtores de Trezza se intervertem em vendedores de mercadorias. Talvez a exceção sejam os funcionários públicos, como o policial Salvadote, os pequenos comerciantes e os capitalistas da indústria da pesca, donos da Cooperativa de Trabalho que monopoliza a compra dos peixes e faz a intermediação de mão-de-obra, “alugando” barcos para a tripulação de proletários do mar. A cooperativa de trabalho de Acitrezza chama-se “Ciclope” – venda e transporte de peixe.

Portanto, os proletáros do mar em Acitrezza não vendem a força de trabalho diretamente, auferindo um salário. Eles vendem o produto do trabalho no mercado, obtendo um valor em dinheiro que, após descontar os custos diretos e indiretos dos meios de trabalho, sobra muito pouco. É deste modo que eles têm a percepção da “exploração” dos mercadores de peixe, daqueles que não pagam um “justo preço” pelo produto de suas atividades laborais.

O que se coloca, no horizonte ideológico dos pescadores é o ideal de justiça social e de um salário justo. Este é, de certo modo, o horizonte da economia política, que com Von Thünen, por exemplo, estava preocupado em investigar os princípios morais e econômicos que determinam o “salário natural” e, portanto, o salário justo do trabalhador. É deste horizonte ideológico, de produtores-vendedores de mercadorias, onde a forma-mercadoria impregna a consciência de classe contingente, com suas disposições particularistas/individualistico-familiar, que tende a surgir a base material para a ideologia do empreendendorismo.

Assim, como podemos verificar, a exploração dos pescadores em Trezza não é como a exploração dos servos da gleba, no modo de produção feudal, onde as relações de dependência pessoal constituíam a base social daquela formação societária. No feudalismo, como observou Marx, “em vez do homem independente, encontramos aqui todos dependentes – servos e senhores feudais, vassalos e suseranos, leigos e clérigos. A dependência pessoal caracteriza tanto as condições sociais da produção material quanto as esferas de vida estruturadas sobre ela.” E prossegue ele: “Mas, justamente porque relações de dependência pessoal constituem a base social dada, os trabalhos e produtos não precisam adquiri forma fantástica, diferente de sua realidade.” (MARX, 1985).

Ora, o trabalho e produtos dos servos da gleba entravam na engrenagem social como serviços e pagamento in natura: “A forma natural do trabalho, sua particularidade, e não, como na base da produção de mercadorias, a sua generalidade, é aqui sua forma diretamente social.” E salienta: “A corvéia mede-se tanto pelo tempo quanto o trabalho que produz mercadorias, mas cada servo sabe que é certa quantidade de sua força pessoal de trabalho que ele despende no serviço do seu senhor. O dízimo a ser pago ao cura, é mais claro que a benção do cura.” (MARX, 1985)

Ao expor a natureza do trabalho do servo da gleba, Marx buscava demonstrar a intransparencia (e opacidade) das relações de exploração capitalista constituída sob a forma-mercadoria. Na medida em que os trabalhos e produtos na sociedade capitalista adquirem a forma-mercadoria, eles adquirem “forma fantástica, diferente de sua realidade”. É o fetichismo da mercadoria que tende a ocultar a exploração da força de trabalho. Isto é, a mais-valia não está clara para o operário – a exploração não aparece com tanta clareza – inclusive, palpabilidade - como a exploração do servo da gleba. Como disse Marx: “O dízimo a ser pago ao cura, é mais claro que a benção do cura” (a força de trabalho como mercadoria é o trabalhador livre – se é livre, como pode ser explorado?).

Ora, em Acitrezza, a indústria da pesca é um processo de produção de mercadorias baseado em relações de trabalho onde os proletários do mar, apesar de não serem proprietários dos meios de produção, ainda tem a posse (e o controle) dos meios de trabalho. São quase artesãos do mar. Por outro lado, os trabalhos e produtos da atividade dos pescadores do mar entram na engrenagem social como mercadorias vendidas no mercado. O peixe, trabalhos e produtos da atividade dos proletários do mar, são levados pelos próprios pescadores, para o mercado e trocados por dinheiro. Os comerciantes monopolizam o comércio de peixe local. Na verdade, é um falso leilão de peixes.

É neste momento que se manifesta através da circulação, da troca desigual, a “exploração”. Torna-se clara para os proletários-vendedores de mercadorias a injustiça cometida no ato da compra. Os proletários, vendedores de mercadoria, não auferem um “preço justo”. É através da troca desigual que os mercadores “sugam” a mais-valia (ou, para ser mais preciso, o excedente de valor) produzida pelos proletários do mar. A desvalorização do preço do peixe, causa a indignação do pescador, pois os proletários do mar vêem naquele produto-mercadoria sua própria força de trabalho cristalizada. Desvalorizá-las é desvalorizar a si próprios, isto é, desvalorizar seu trabalho coletivo, tendo em vista que o peixe é produto de um processo de trabalho coletivo.



Em “A terra treme”, Visconti nos apresenta in loco o elemento central do sistema de exploração dos trabalhadores do mar em Acitrezza. É a cena do leilão de peixes, onde os mercadores compram os peixes dos trabalhadores, pagando um valor abaixo do que eles valem. Primeiro, procuram desvalorizar a qualidade do produto e oferecem um preço ínfimo para poderem depois, revender o pescado em Catania a um preço bastante superior. Um dos mercadores diz: “É a pior cavalinha que já vi!”. Outro diz: “terei sorte se vender! As fábricas têm reclamado”. Enfim, os mercadores manipulam os pescadores, pessoas rudes que não têm para quem vender o produto de seu trabalho. Caso não consigam vendem para o cartel local, não vendem seu produto que se deteriora com facilidade. Os pescadores sabem que estão sendo roubados. Um deles exclama: “Cuidado com a balança! Está desequilibrada! Vai me roubar”. E o mercador retruca: “Cuidado com a língua, se quiser negociar comigo!”. Os mercadores se aproveitam da vantagem monopólica na distribuição para se apropriarem do valor produzido pelos produtores diretos, os trabalhadores do mar: “50 por tudo! É pegar ou largar!”, diz um dos mercadores.

Portanto, Luchino Visconti nos mostra, neste primeiro momento, a tese do filme: a negação do trabalho proletário, reduzindo a uma situação de indignidade humana. É claro que, numa exposição dialética, à tese do filme se segue uma antítese, uma suposta “negação da negação”. Iremos verificar a seguir, os limites desta “negação da negação” que nos conduz a uma síntese trágica. É o que veremos mais adiante.

Aos poucos fomos levados ao sistema de exploração do trabalho que sufoca a existência da comunidade de pescadores locais. É um fardo secular que se reproduz há gerações, como podemos perceber. Poucos se levantam contra os predadores da força de trabalho dos pescadores. Após a cena do leilão de peixe, Visconti nos mostra a volta para casa dos Valastro, após a pescaria e o leilão dos peixes coletados no processo de trabalho daquele dia.

É interessante que na cena da volta dos Valastro para casa, aparecem crianças vendendo tangerinas para os Valastro. De fato, Acitrezza é um mundo de vendedores de mercadorias que expõe, por um lado, a miséria proletária, obrigada a auferir renda através da circulação de produtos-mercadorias (o caso das crianças que vendem frutas aos Valastro); por outro lado, a presença de uma oligarquia proprietária parasitária e predadora que “suga” o valor produzido pelo mundo do trabalho de Trezza (o caso dos trabalhadores do mar de Trezza). A jovem da casa lamenta que as tangerinas estão muito caras.

Ora, os Valastros estão imersos na teia mercantil que os sufoca. Vendem o produto do trabalho a um preço ínfimo e falta-lhe renda para comprar produtos-mercadorias de outros vendedores. O mundo de Acitrezza é constituído, deste modo, por produtores coletores e vendedores de mercadorias. A atividade de pesca é uma atividade de coleta propriamente dita (a produção se dá através da coleta de “produtos” da Natureza). A pescaria é atividade milenar que surge no alvorecer da hominidade. É claro que hoje, a produção do peixe é cada vez mais marcada por elementos de socialidade no sentido de que o peixe coletado é literalmente produzido pelo homem, através de técnicas de criação laboratoriais e industriais. Poderíamos dizer que hoje, em sua maior parte, é uma coleta industrializada que se distingue da pescar artesanal onde o trabalhador do mar se lançava no mar indômito para coletar peixes. É interessante que Visconti tenha escolhido o tema de produtores coletores para expor o drama social da proletariedade imersa numa forma particular de exploração, uma “exploração” que se dá através da troca desigual e onde o poder de barganha se impõe através das relações de propriedade e prestigio local.

Na chegada em casa, os homens da família Valastro carregam o fardo de seus instrumentos de trabalho. Diz o narrador: “12 horas de trabalho estafante. E não trazem para caso o mínimo para matar a fome. No entanto, quando puxaram as redes, elas estavam cheias. O pensamento de não ganharem para saciar tantas bocas continuará a angustiá-los e envenenará as poucas horas de descanso.”

Mais uma vez, o narrador, nos coloca no centro da problemática do filme: a percepção e sentimento da exploração do trabalho, percepção e sentimento que se dissemina pelas relações sociais dos proletários do mar; seja no local de trabalho, onde lamentam a indiferença da chefia que está sempre contra eles; seja no lar, onde constatam, cabisbaixos, que não trazem o mínimo para saciar a fome. A angústia da exploração, sentida com maior intensidade pelos mais jovens, diz o narrador, “envenenará as poucas horas de descanso”. Ora, existe uma percepção e sentimento de aguda injustiça que o narrador expõe através desta singela frase: “...não trazem para caso o mínimo para matar a fome. No entanto, quando puxaram as redes, elas estavam cheias.” É uma frase singela que traduz a problemática de Marx nos “Manuscritos de 1844”. Diz ele: “O trabalhador se torna tanto mais pobre quanto mais riqueza produz, quanto mais a sua produção aumenta em poder e extensão.” (MARX, 2005) Eis a problemática crucial da proletariedade, a partir da qual irá se expor o problema do trabalho estranhado, propriedade privada/divisão hierárquica do trabalho e exploração propriamente dita.

É através do trabalho, atividade de luta pela existência, que os Valastros obtêm a renda monetária indispensável para a sobrevivência familiar. Acitrezza é uma sociedade mercantil de economia monetária (por exemplo, numa das cenas do filme, o avó Valastro distribui o dinheiro ganha entre os homens da casa...). O intercâmbio deles com a Natureza socializada é determinados pelo quantum de renda monetária obtida através do “salário”, que, no caso dos proletários do mar, aparece como a renda obtida através da venda de seus produtos no leilão de peixes. Num certo momento, o cálculo do ganho do trabalho. O jovem Cola Vaslastro pergunta: “Vovô, quanto ganhamos hoje? Umas 15500 liras?”. Diz ele: “Pescamos 11 Kg de cavalinha e ganhamos 7750 liras”. O jovem N’toni exclama: “A história de sempre. Trabalhamos a noite toda e eles lucram.” O velho Valastro observa: “Sempre foi assim, desde que me lembro.” E N’toni salienta: “Não pode continuar assim”.

Pela primeira vez, observamos com vigor no filme o conflito de gerações. O avô Valastro expressa o acomodamento com a situação de exploração, considerada quase como uma “segunda natureza”. Mas o jovem N’toni se insurge e não aceita isto: “Não pode continuar assim”, exclama. São experiências geracionais que divergem no trato das relações de exploração que se acumulam no tempo-espaço de Acitrezza. Os velhos vêem as coisas de olho modo.



O avô estranha a atitude do neto N’toni. Pergunta: “Cola, o que há com Ntoni?”. O irmão de Ntoni observa: “Desde que prestou serviço militar não suporta injustiça. Ele não pensa mais como nós. Pensa diferente.”. É uma observação importante que a atutude do jovem N’toni expressa uma sociabilidade mais complexa, mais rica em relações sociais, uma sociabilidade mais social, não restrita ao pequeno mundo provinciano da aldeia de Acitrezza. O serviço militar na Marinha abriu para N’toni Valastro a oportunidade de contato com o mundo dos homens, talvez para o mundo da luta de classes e da luta pelos direitos dos trabalhadores. Enfim, para além da aldeia de Acitrezza existe um mundo social de luta contra a exploração do capital. N’toni formou sua humanidade proletária de outro modo, sentindo-se incomodado, em seu intímo, contra o sistema de exploração. Por isso, ele exclama: ““Não pode continuar assim”. Isto é, um outro mundo é possível.

A experiência vivida de N‘toni o leva a pensar de forma diferente os problemas do mundo social. É como se ele, em sua experiência singular, rompesse com o lastro de tradições do passado que contribuíram para o consentimento à exploração secular do trabalho. O velho Valastro observa: “Há 70 anos penso do mesmo jeito, e deu tudo certo.” E exclama: “N’toni, escute os mais velhos. Como os antigos dizem: a força da juventude e a sabedoria da idade.”

É importante destacar que, um dos elementos marcantes do filme, que constitui a experiência da consciência de classe dos proletários do mar, é o conflito geracional que expõe uma verdade. Isto é, a consciência de classe é determinada, em suas múltiplas configurações perceptivas (e afetivas), pelas experiências geracionais (além, é claro, das experiências de gênero, de etnia e de credo religioso). “A terra treme”, de Luchino Visconti, é um filme que trata não apenas da exploração de proletários do mar, mas, de forma concreta, da sua consciência de classe contingente.

No filme de Visconti, o que se torna claro, em vários momentos, no tocante a atitude dos jovens Valastro (N’toni e Cola) é uma ruptura com o lastro do passado que pesa, como um fardo, sobre o mundo dos homens. O jovem N’toni ao se rebelar (e romper) com os antigos patrões, os mercadores de Trezza, não apenas ousa atentar contra as relações de poder e dominação do capital, mas também contra a cosmovisão da familia Valastro, o imaginário de uma tradição e percepção secular de que “os mais velhos são mais sábios” ou ainda de que “o que sempre foi assim não deve ser mudado”. O jovem N’toni se insurge, portanto, contra uma consciência ingênua, elemento compositivo do sistema de controle sócio-metabólico do capital em Trezza.

Enfim, o jovem N’toni, como Prometeu, herói mítico da Grécia Antiga que ousou divergir de Zeus, enfrenta o poder do capital e seu sócio-metabolismo secular. Ele paga caro pela empreitada heróica. Mas o fracasso de sua atitude insubmissa e o final trágico de sua rebeldia familiar não invalida sua nova visão de mundo. É isso que o capital quer imputar a ele, isto é, o fracasso dos Valastro é um exemplo para aqueles que ousam querer mudar o mundo. A classe dominante de Trezza aproveitou a tragédia dos Valastro para disseminar a idéia de que, o que sempre foi assim não deve ser mudado, sob pena da maldição dos deuses. Mas, o fracasso de N’toni Valastro expressa menos o desvalor de sua nova atitude insubmissa que acreditou que era possível mudar o mundo da exploração do capital do que os limites da ação meramente particularista, submetida à contingência do mundo social e mundo natural

Na verdade, a demonstração de insatisfação dos jovens Valastros conclui o que poderíamos considerar o momento da tese do filme. Nesta primeira fase, delinearam-se os elementos contraditórios da narrativa, exposta em suas múltiplas dimensões. O trabalho, a cidade e o lar. Visconti expõe a insatisfação dos pescadores no processo de trabalho e que se prolonga no lar, após constatar o ganho de miséria que auferiram no dia. O que está claro no primeiro momento da narrativa é a aguda percepção da exploração do trabalho.

Além disso, no primeiro momento do filme, observamos uma dupla função da memória, primeiro como referente do passado, nas lembranças de Lucia e, segundo, a memória que aprisiona homens e mulheres aos constrangimentos do presente, como podemos verificar através da fala do velho Valastro, que condena a rebeldia do jovem N’toni. De um lado, reminiscências que ligam o espírito de família dos Valastro, expressos nas fotografias penduradas na parede; de outro, experiências geracionais de trabalhadores do mar, onde os mais velhos alimentam a ideologia da dominação do capital.

Como salientamos, existem elementos de contradição na experiência vivida do jovem N’toni. Por um lado, ele expressa a outra geração, como, por exemplo, seu irmão Cola. Mas N’toni Valastro é uma personalidade singular que transcende o espaço-tempo do metabolismo social em Acitrezza. Como observamos, N”toni serviu o serviço militar e conheceu novas terras. Ele sabe que o mundo é grande. Cola concorda com ele. São os jovens Valastros que indicam através desta rebeldia familiar latente a perspectiva de negação da negação da condição de proletariedade.

O filme “A terra treme”, de Luchino Visconti expõe as dimensões da condição de proletariedade dos trabalhadores do mar em Acitrezza. Como salientamos, retrata o processo de trabalho, as angústias da exploração e a rebeldia dos jovens homens da família Valastro. As mulheres ficam cuidando do lar, recepcionado os homens provedores que chegam do mar. Depois de uma longa jornada de trabalho, N’toni se dirige para a casa da amada, a jovem Nedda. Nesse momento, Visconti expõe a cotidianidade dos afetos e dos sonhos românticos (e sexuais) que perpassam o cotidiano duro dos trabalhadores de Acitrezza. Além da relação afetiva de N’toni com Nedda, temos a paixão contida de Mara, irmã mais velha de Ntoni, pelo pedreiro Nicola; e o flerte sedutor de Salvatore, o policial, por Lucia, jovem irmã de N’toni.

Preenchendo o cotidiano dos proletários do mar de Trezza, a canção lamentosa que acompanham as cenas de sonho afetivo dos personagens. Elas expressam uma experiência de classe para além do processo de trabalho. É o lado da reprodução social marcada pelas utopias emocionais, principalmente das mulheres, imersas em trabalho doméstico. Na verdade, a canção popular em “A terra treme” é um lamento que expõe, no plano do afeto, a dimensão da alienação, da perda e da busca irremediável pelo objeto amado.

Na medida em que se contrasta com o trabalho estranhado que organiza a vida de homens e mulheres proletários, o cotidiano do desejo é outra dimensão da aguda alienação do universo social de Acitrezza. Por um lado, o desejo, que está situado em horizontes convencionais. Por exemplo, N’toni anseia casar e constituir família (“o peixe nasce para quem o come”, diz ele). As utopias emocionais, eivadas do sentimento do amor romântico e do canto da perda do objeto amado, aparece como o lado luminoso da existência dura dos proletários do mar. Existe um lastro de alienação não apenas no trabalho, mas utopias do amor romântico e do desejo sexual.

Ora, em “A terra treme”, os Valastros se frustram não apenas na busca de um trabalho cheio de sentido, mas na busca de um afeto verdadeiro. Mais tarde, como iremos verificar, N’toni rompe com a jovem pragmática Nedda, que busca apenas um bom partido; e Mara não consegue conquistar o coração do vacilante Nicola.
Deste modo, a narrativa de “A terra treme” é marcada pelos interstícios da cotidianidade sócio-reprodutiva, das utopias e sonhos sentimentais caros à perpetuação das instituições casamento e família. Mas o que predomina é a cotidianidade da produção, do trabalho estranhado, da luta pela existência, “uma escravidão sem saída”, como diz o narrador do filme.

O processo de trabalho do pescador, como todo processo de trabalho heterônomo, está imerso na rotina. É jogar e recolher a rede, uma atividade cotidiana que consome as energias laborais de homens velhos e jovens. Mas o que angustia os Valastro não é o processo de trabalho em si, a atividade laboral com seu desgaste físico-mental. Eles são artesãos do mar, que controlam o processo de trabalho, que executam com primor uma atividade secular, uma profissão que herdaram como um destino de seus antepassados. O que os angustia não é o processo de trabalho, mas sim a alienação do produto do trabalho, expropriado pelos mercadores do mar. “É preciso muito pexie pela miséria que os mercadores pagam...”, diz o narrador do filme. Existe, deste modo, um anseio de justiça social. O que se busca é um preço justo pelo produto do trabalho – é o horizonte reivindicativo dos Valastro. É através do mercado que se dá a expropriação do valor produzido na atividade laboral dos pescadores. É um ponto importante para apreendermos a natureza do estranhamento do trabalho dos pescadores de Acitrezza. É ela que irá determinar a práxis dos Valastro.

Por isso, a escalada de insatisfação conduz os Valastro a buscarem, num primeiro momento, um confronto com os mercadores, intervindo, de forma coletiva, no mercado. Querem acabar com a injustiça. Decidem que são os jovens que vão negociar com os mercadores. É uma decisão tomada no interior do processo de trabalho, no espaço de sociabilidade dos artesãos do mar que dialogam e buscam uma resposta à exploração do trabalho na qual estão imersos. Estão decididos a não serem enganados. Como observamos, a exploração que os aflige é transparente. Não é a exploração do operário onde a mais-valia está oculta pelo fetichismo, mas sim, a exploração do produtor cuja excedente é expropriado através de relações mercantis desiguais. Não é a exploração do trabalhador assalariado, cuja mais-valia está oculta dele pela relação justa do contrato de trabalho Por isso, o horizonte dos pescadores do mar é o horizonte pequeno-burguês, eivado de idéias de liberdade, igualdade e justiça social, isto é, da ideologia do pequeno negócio familiar. É o tipo de exploração primordial do pequeno artesão expropriado pelo capitalista-comerciante, proprietários dos meios de produção (como artesãos do mar, eles possuem os instrumentos de trabalho, mas não os meios de produção).

No mercado de Acitrezza, ao se insurgirem contra a injustiça na troca, jogam os peixes no mar. É o primeiro ato de rebeldia e insubordinação dos Valastros. É um ato coletivo no qual participam não apenas os Valastro, mas outros jovens pescadores. Os jovens Valastros, N’toni e Cola, foram os lideres da rebeldia. Devido suas atitudes, são presos e levados para Catania.

É interessante que, ao agirem de modo coletivo, insubordinando-se contra as regras de mercado, os jovens pescadores prefiguraram uma ação sindical propriamente dita. É claro que não há sindicato ou associação, mas a atuação deles, dos Valastros, nesse primeiro momento, é de caráter associativo-político. É claro que transgrediram a legalidade, tendo em vista que não apenas paralisaram os mecanismos de mercado e da troca injusta, como danificaram a propriedade privada, insurgindo-se contra a ordem pública.

É curioso que, nesse primeiro momento, os Valastro, ao serem presos, atingem o lucro dos mercadores. A cena do dialogo dos mercadores, numa mesa de fartura, conversando sobre negócios é deveras interessante. Num certo momento, observam que “a cidade virou comunista”. Comentam a prisão dos jovens Valastros. Mas há divergências entre os donos do poder. Um deles, mais pragmático, pergunta: “Qual a utilidade deles na cadeia?”. Enfim, a prisão dos pescadores mais jovens, força de trabalho mais produtiva, prejudica o faturamento e a lucratividade dos mercadores. Eis a contradição que os Valastros não conseguem explorar. Os jovens pescadores têm um poder de barganha, mas não os utilizam. Não se coloca o horizonte da barganha e da negociação, pois em Acitrezza, não há sujeitos de direito. Eis a tragédia dos Valastros. É o fechamento político-associativo que irá implicar, num segundo momento, a saída final dos Valastros: ter um negócio por contra própria.

 


Finalmente, os mercadores decidem soltam N’toni e os jovens pescadores insurgentes que são recebidos com aclamação em Acitrezza. Menos que um gesto de generosidade, foi um gesto pragmático dos donos do poder e do capital. Por um momento deixaram claro para os Valastros que os mercadores não podem ficar sem os pescadores. Na verdade, a lei pouco importa. Eles desvelam o caráter instrumental da lei que serve aos poderosos que a utiliza ao seu bel prazer. Concluem também que “os mercadores precisam de nós”. Naquele momento, ficou claro para N’toni não apenas o parasitarismo dos mercadores, que vivem à custa da exploração injusta dos pescadores, mas sua dependência estrutural para com eles. Enfim, o capital não vive sem explorar o trabalho vivo. O trabalho é a fonte da riqueza social e da mais-valia expropriada pelos donos dos meios de produção. O jovem N’toni Valastro percebeu isto, com clareza, se interrogando por que os pescadores não podiam ficar sem os mercadores.

Após ser solto, N’toni vai para o bar comemorar com os companheiros de luta. Depois, em casa, numa reunião de família, decidem enfrentar os mercadores, não através da ação coletiva e de classe, constituindo um sindicato ou associação, com poder de barganha. Esta seria a saída política propriamente dita que tem caracterizado a história do movimento operário, marcada pela constituição das instituições de defesa do trabalho. Após concluírem que o capital não vive sem explorar o trabalho vivo e que os mercadores precisam deles, os Valastros decidem enfrentá-los através da constituição de um negócio por conta própria, uma ação familiar-corporativa, que é o horizonte da comunidade de Acitrezza, constituída em sua maioria, por trabalhadores-artesãos. Ao decidirem trabalhar sozinhos, os Valastros buscam negar o capitalismo dos mercadores no interior do próprio capitalismo, disseminando a economia solidária, constituída por empresas autogestionárias de natureza corporativo-familiar. É um empreendimento solitário na aldeia miserável de Acitrrezza.

Naquele momento, mais uma vez se coloca, pela terceira vez, o conflito geracional. O que Visconti expõe é o peso da tradição das gerações passadas sobre as gerações presentes. O velho Valastro lembra a N’toni que há séculos tem sido assim. Mas N’toni e Cola, após consultar a família, que é o horizonte associativo possível daqueles proletários-artesãos do mar, dizem: “Temos que unir contra eles”. Esta frase poderia ter outro sentido na ótica político-sindical, mas na perspectiva corporativo-familiar é a ante-sala da tragédia dos Valastros. Eles fazem uma aposta no mercado. Não buscam negar o mercado, mas se integrar a ele, buscando uma saída corporativo-familiar. Na medida em que organizam seus interesses particulares, buscando inserir-se na concorrência do mercado, permanecem no horizonte da sociedade civil.

Para montar o próprio negócio, os Valastro decidem recorrer a um empréstimo no banco para comprar um barco de pesca, seus meio de produção. Precisam também comprar os insumos, como o sal, para salgar o peixe e vender em Catania. Para conseguir o empréstimo, hipotecam a casa própria. O dia glorioso da família Valastro é o dia de ida a Catania para solicitar empréstimo ao banco. É o momento em que todos se arrumam e, em traje formal, se dirigem a cidade. É quase ritual de uma família proletária que busca se emancipar do trabalho heterônomo, da subordinação à classe capitalista, a classe exploradora. Eles visam “abolir” os capitalistas, tornando-se um deles.

Entretanto, a rigor, os Valastros não se tornam capitalistas propriamente dito, pois não se apropriam do produto do trabalho de outrem, mas sim do próprio trabalho. É uma empresa familiar que busca ter não apenas o controle dos meios de produção, mas a apropriação dos resultados da sua atividade de pesca. É o ideal familiar-artesanal que está no horizonte da consciência de classe possível dos Valastro (utiliando o conceito de Lucien Goldmann).

Ao conseguirem o empréstimo bancário, hipotecando a casa própria, os Valastros compram os meios de produção da sua atividade de pesca, tornado-se, deste modo, empreendedores. Entretanto, tornam-se reféns do capital bancário, pois têm que pagar por mês, uma prestação ao banco, até a quitação total do empréstimo. Além disso, submetem-se ao humor do mercado.

A escolha de N’toni e da família Valastro, ao deliberar “temos que nos unir contra eles”, não implicou, a rigor, na abolição do capital e do sistema de controle sócio-metabólico que age sob as costas dos agentes sociais, instaurando uma sociabilidade da contingência e do acaso. Eles não se tornaram individualidades pessoais, mas sim individualidades de classe. Ora, na medida em que estão imersos no jogo do mercado, não são livres. Existe uma liberdade fictícia.

Num certo momento da narrativa, o narrador de “A terra treme” observa: “...tudo dá medo quando se vive na miséria”. De fato, o filme de Luchino Visconti trata de proletários imersos na miséria absoluta. A situação de proletariedade extrema possui seu próprio sócio-metabolismo, um metabolismo social de subjetividades cativas do medo, que paralisam suas vontades de emancipação. É uma classe em inércia que reitera o passado de exploração. Aliás, a exploração torna-se uma “segunda natureza”, um destino manifesto dos pobres. O medo é o cimento da dominação do capital em Acitrezza. É expressão do jugo secular do capital que impregna a memória dos velhos. Por isso, o conflito geracional ocupa um lugar central na trama narrativa de “A terra treme”. A discussão entre o velho Valastro e os jovens N’toni e Cola aparece como a “brecha” que prenuncia a ruptura possível da dominação secular.

É através do universo familiar, a figura do Pai e do Avó (a tradição patriarcal é predominante), que se impõe a Tradição que reitera a memória do passado de exploração. Nesse caso, Família é Tradição. Mas a insubmissão dos jovens Valastros se afirma devido a uma situação particular-concreta da familia: o pai dos Valastro morrera num acidente de trabalho há alguns anos. Nesse caso, o “chefe da família” Valastro é o filho mais velho, N’toni, jovem insubmisso que exerce hegemonia sobre os demais. O avó, figura apagada, ainda expressa a Tradição, mas ela não se impõe. Apesar dos conflitos geracionais, é o discurso de N’toni e Cola que prevalece. Por isso, uma família sem pai é uma família numa situação critica, incapaz de reiterar a tradição e os laços sócio-metabólicos da dominação do capital. Na medida em que um jovem N’toni é o chefe de família, a insubordinação aos constrangimentos sistêmicos tornou-se mais efetiva.

Em Acitrezza, a frase de Auguste Comte, que diz que “os mortos dominam os vivos”, expressa sua verdade candente. É claro que a miséria e seu sócio-metabolismo, por um lado, sedimenta o medo de se lançar para além da “segunda natureza”, que é a dominação do capital. Mas, ao mesmo tempo, abre “brechas” no espírito insubmisso da juventude que ousa acreditar que isto, a coisa, pode ser diferente. É o caso de N’toni Valastro, jovem que descobriu o vasto mundo, e quer se lançar por contra própria no negócio da pesca.

A obtenção do empréstimo bancário e a constituição do negócio por conta própria da família Valastro inaugura um segundo momento da narrativa do filme “A terra treme”, quase uma antítese que nega a tese posta no primeiro momento, o momento da exploração e da miséria dos pescadores de Acitrezza. É um momento de felicidade que abre horizontes de realização pessoal, mesmo no interior da condição de individualidades de classe. Mas é uma antítese precária, como iremos ver adiante. Eis a suprema contradição da antítese do empreendedorismo dos Valastro.

Neste momento do filme, está claro o vinculo entre trabalho e amor, isto é, ao emancipar-se do patrão, tornando-se patrão para si próprio, a primeira iniciativa de N’toni é buscar conquistar Nedda, seu sonho romântico. Ele sabe que sendo rico, ela o quer. Como homem, a riqueza dá-lhe credencial de realização masculina, identificada em sociedades patriarcais com a função de provedor. Pelo menos, Nedda expressa a jovem pobre, imersa em sonhos românticos, que anseia uma vida melhor através do casamento. Aliás, o sonho do amor romântico das mulheres pobres aparece como uma válvula de escape da situação de miséria humana, dupla miséria humana: a miséria material e a miséria de gênero, da opressão patriarcal e da submissão ao homem provedor, lastro secular de opressão feminina (por exemplo, o sonho do cavalo branco, recitado por Mara para a pequena Valastro, que adormece).

Mas se a situação de afluência dos Valastro, ao tornarem-se empreendedores, contribui para aproximar Nedda de N’toni, afasta, ao mesmo tempo, Nicola de Mara. É a questão de gênero e de classe exposta acima. Ao tornar-se uma jovem rica, Mara tenderia a negar o papel de homem provedor e de chefe de família do pobre Nicola. Não poderia haver amor que os ligasse contrapondo-se aos papeis sociais tradicionais atribuídos aos jovens amantes. Estamos tratando de sujeitos imersos ainda na tradição dos afetos e das relações de gênero patriarcal.

Deste modo, o caso de N’toni/Nedda e Mara/Nicola demonstram que trabalho e amor possuem vínculos orgânicos, com o primeiro determinando o horizonte de realização pessoal do segundo. Estamos tratando de individualidades de classe imersas em constrangimentos sociais. Os Valastros poderiam “emancipar-se” de uma situação de trabalho, mas não poderiam emancipar-se de papeis sociais tradicionais que pesam como um “destino” sobre todos eles: eis a angústia de Mara que sendo uma jovem rica tenderia a se distanciar de Nicola.

O processo de trabalho da pesca e de preparação do pescado na nova empresa Valastro assume outras determinações sociais. Num primeiro momento, não estamos diante do trabalho estranhado, embora as atividades da circulação e reprodução social estejam determinadas pelo controle sócio-metabólico do capital, como o mercado e Estado, por exemplo. Os Valastros não são apenas donos dos meios de produção da vida material. Eles possuem o controle dos instrumentos de trabalho. O que se impõe na atividade laboral dos trabalhadores do mar é o desafio heróico do homem enfrentando as forças da Natureza indômita.

No processo de trabalho da pesca artesanal que aparece no filme “A terra treme”, se coloca, de imediato, a luta do homem contra a natureza indomável. As “mediações de segunda ordem”, que são trabalho assalariado, propriedade privada, troca, dinheiro, renda, lucro, valor, etc, tendem a ficarem ocultas pelas “mediações de primeira ordem” (o intercâmbio sócio-metabólico do homem com a natureza). Pode-se dizer que na atividade artesanal tende a surgir uma forma de “fetichismo” ou de estranhamento primordial. A natureza, através da matéria-prima ou do objeto de trabalho, aparecem como o desconhecido. Nesse caso, o mar é a exterioridade desconhecida que se impõem aos pescadores. É preciso enfrentar o mar para que se possam obter os meios de subsistência do homem.

Além disso, para os Valastros, a atividade da pesca aparece não como sofrimento, no sentido de exploração, mas como labor, luta de existência, instância da necessidade que, na ótica da tradição ancestral, possui um sentido moral: ela fortalece os homens. O desconhecido, deste modo, contribui para a efetivação humano-generica.

É o que não ocorre com o fetichismo social do capital, que prevalece no processo de trabalho estranhado, o trabalho capitalista propriamente dito, onde o produtor não é proprietário e não possui o controle das condições objetivas e subjetivas de produção, onde a “segunda natureza” se impõe, desefetivando os homens que trabalham. Sob o fetichismo social, o desconhecido é o que se ignora. Nesse caso, o objeto, o produto da atividade laboral, aparece como coisa que os constrange.

Por outro lado, a cena da preparação do pescado, que reúne não apenas os Valastros, mas uma pequena comunidade de ajudantes, mulheres, homens e crianças, aparece como a prefiguração do trabalho coletivo como fruição, onde os produtores aparecem como donos do seu próprio produto da atividade laboral. Eles cantam “O cisne de Catania”, canção popular de Vincenzo Belini, felizes, sem o sentimento de exploração e de alienação.

O terceiro momento da narrativa de “A terra treme”, de Luchino Visconti é o momento da tragédia dos Valastros. A dialética do filme é uma dialética trágica. O que parecia ser uma antítese que pudesse negar a sua condição de proletariedade dos Valastro, afirmação o núcleo humano das individualidades pessoais, não se sustenta. O pequeno negócio vai à derrocada quando uma tempestade destrói o barco dos Valastros. No filme, o que aparece, num primeiro momento, é que, o “expropriador” dos Valastros é a própria Natureza indômita. A tragédia deles é quase como um castigo dos deuses que penaliza o herói rebelde que se insurgiu contra a tradição secular. Talvez possamos culpar o acaso e o azar de N’toni Valastro. Enfim, o mar é amargo, mas o mercado é cruel. É o espaço da contingência onde sorte e azar jogam com os destinos dos homens.

É claro que N’toni teve azar. Mas existem determinações sociais na tragédia dos Valastros. Naquele dia o mar estava ameaçador. Mesmo assim, N’toni Valastro, que não poderia perder um dia de trabalho, imerso na obsessão de pagar a dívida do banco, decidiu enfrentar o mar e confiar na sorte. Temos uma hipótese: a obsessão de N’toni em quitar sua divida com o banco e suas próprias qualidades pessoais, como seu caráter insurgente e coragem heróica, motivos de seu espírito empreendedor, contribuíram para precarizar a percepção dos riscos daquela empreitada.

O pescador experiente sabia que não devia se lançar ao mar naquelas condições temerárias. É uma percepção que nasce da experiência com a natureza indomável e do contato cotidiano com o mar e suas “idiossincrasias”. Inclusive, Bandeira, pescador amigo de N’toni chegara a alertá-lo dos riscos de lançar o barco de pesca no mar ameaçador. Mas N’toni parecia cego pela ânsia de livrar-se da espectro do capital bancário que o perseguia. “Temos que pagar a dívida”, era o mantra dos Valastro.

Portanto, não podemos culpar o mar ameaçador ou o azar pela desgraça de N’toni. Haviam constrangimentos sociais do sistema do capital que o levaram a adotar uma atitude de risco. O que significa que, o capital e seu sócio-metabolismo não apenas criam uma sociedade de risco, mas ativa um processo de subjetivação que impede os agentes sociais proletários de perceberem as dimensões do risco e as condições ameaçadoras que os cercam. É quase como uma precarização dos sentidos humanos, da percepção da realidade das coisas. É, deste modo, uma elemento da desefetivação do trabalhador assalariado e do trabalhador por conta próprio imerso nos constrangimentos do mercado. Na verdade, embora proprietários dos meios de produção, os Valastros não romperam com o sócio-metabolismo do capital. A tragédia deles é um elemento do metabolismo do capital.

A tragédia dos Valastro é anunciada pelo tocar dos sinos. A aldeia de Acitrezza toma conhecimento de que algo terrível aconteceu no mar. O barco de N’toni não retornara. As mulheres dos Valastros, vestidas de preto, aguardam os homens nas pedras à beira-mar, com mantas pretas, buscando identificar no horizonte rastros do barco de N’toni. Desesperada, Mara busca ajuda em Bandeira, pescador amigo de N’toni. Depois de horas, o barco aparece. Eles estavam à deriva abatidos pela tempestade. Em uma noite de tempestade, perduram tudo o que investiram. A Natureza se insurgira contra eles. Tiveram azar. Condenados pelo destino. O narrador diz: “Os mercadores teriam a sua vingança”. Ao retornarem, são recebidos com o desprezo merecido dos fracassados. Os mercadores riem de satisfação. “Devia ouvir os mais velhos”, diziam.

No terceiro momento do filme, temos o retorno terrível dos constrangimentos estranhados contra os quais se rebelaram os Valastros. É um momento de intensa reação das forças sociais do capital. Toda revolução contém sua contra-revolução. Alienados dos meios de produção, os Valastros serão obrigados a trabalhar como proletários do mar. Os homens Valastros precisam de empregos. Mas eles serão punidos pelos mercadores que se negam a empregá-los. Sobre N’toni diz o narrador: “Não há um cão que o queira em Trezza”.

O terceiro momento da narrativa do filme “A terra treme”, é marcado pela degradação inelutável da família Valastro. Imersos no desemprego, passam fome. Não têm mais renda e o pior, perdem a casa, que estava hipotecada para o banco. É o retorno terrível da alienação que se vinga contra aqueles que ousaram atentar contra os deuses da dominação do capital em Trezza.

Os Valastro ainda têm um estoque de anchovas congelado. É a última possibilidade de obtenção de renda. Estão no limiar da miséria absoluta. Os mercadores oferecem apenas 80 liras pelo barril de anchovas. É o revide dos mercadores contra N’toni. Lorenzo, o mercador, caçoa de N’toni. Em “A terra treme” se desvela a farsa do mercado como instância da liberdade e fraternidade. O mercado é o ardil dos poderosos e dos oligopólios industriais.

O narrador repete o mote da parábola do verme e da pedra: “Dá-me um tempo que te furo, disse o verme para a pedra”. A pedra são as relações de exploração e dominação do capital, que possuem uma dureza como a pedra, que resiste às intempéries do tempo histórico. Entretanto, o verme é persistente e busca no tempo um aliado. Na verdade, o filme “A terra treme” é uma parábola realista sobre a luta contra a exploração e dominação do capital nas condições perversas de uma região atrasada como a aldeia de Trezza, na Sicília. É uma luta árdua, inglória, sem perspectivas concretas, pois falta-lhes a condição materiais, de um sujeito coletivo histórico.

Partidos e sindicatos operários não são visíveis em Trezza. Apenas observamos pichações com a foice e martelo do Partido Comunista. Mas com certeza a repressão é cruel. A presença dos fascismo aparece na frase de Mussolini inscrita na parede da cooperativa dos pescadores, local de agenciamento dos trabalhadores do mar. Não há horizonte de insurgência política e de organização popular. Portanto, a insurgência de N’toni e da família Valastro é uma insurgência heróica condenada ao fracasso. É a busca individual-familiar que sucumbe diante das contingências da proletariedade.

A degradação da família Valastro é caracterizada, por um lado, pela dispersão de seus membros, seduzidos pelos apelos corruptores do mundo do capital. É como se o universo familiar dos Valastros se desconstruisse, perdendo sua coesão moral, atraídos pela força gravitacional de exterioridades corrosivas. “Tudo que é sólido se desmancha no ar”, diria Marx. A família proletária diante de sua condição de miséria extrema é mera ficção ideológica. A matéria social do capital dissolve quaisquer relações sociais comunitárias, inclusive a “comunidade natural”, que é a família. A proletariedade extrema implode a coesão familiar dos Valastros. Eles ultrapassam a linha da marginalidade social, submergindo-se na lumpenproletariedade. Na falta de horizontes de integração no mundo do trabalho local, alguns membros familiares se dispersam. É o desmanche da família.
Primeiro, o policial Salvatore seduz a jovem Lucia com uma “echarpe” de seda. Imersa na miséria, ela se fascina pelo ornamento de luxo. Mais tarde irá aparecer com um colar de brilhantes. É a prova de que se entregara, de vez, ao policial. Adquire a fama de prostituta na pequena aldeia de Trezza. Na miséria extrema perde-se a honra familiar. O que o filme “A terra treme” expõe são os elementos da degradação proletária em sua condição extrema. É a corrosão da dignidade humana em seus elementos últimos.

Segundo, o jovem Cola, irmão de N’toni, circula pela aldeia com jovens desempregados, à margem da vida social. Ele conhece um homem estranho, vindo de fora, que oferece cigarros americanos e conversa com jovens pescadores sem muitas perspectivas de vida. Há um mês procurando emprego, o jovem Cola se desanima. À beira de morrer de fome, decide sair de Trezza, partindo com o estranho forasteiro que recruta jovens par atividades ilícitas no Continente. Talvez, seja um enviado da máfia que recruta jovens desempregados. Diz Cola: “Cansei de viver aqui”. O narrador diz: “O mar é o mesmo em todo o mundo”. Mais tarde, Cola iria embora, levando consigo uma esperança de vida familiar. Diz ele, “...ainda voltaremos a ser uma família feliz”.

O avó Valastro adoece e é levado para Catania. O irmão pequeno de N’toni e Cola, ainda criança, trabalha numa região próxima, colhendo laranjas. Cai na degradação do trabalho infantil. É o único que consegue ser explorado. Os demais estão excluídos da produção do capital, desocupados e sem perspectivas de inserção salarial.

O jovem N‘toni cai na vida miserável, tornando-se alcoólatra que convive na noite com o “lumpen” de Acitrezza. Desce ao inferno do lumpensinato. Mas N’toni continua enfrentando o poder local. Não abdica de seu orgulho. O enfrentamento aparece como discussão e briga com Lorenzo, capataz dos mercadores. É o enfrentamento físico e pessoal com o poder dominante em Acitrezza. É a briga de um deseperado e de um provocador.

Mas a expressão-mor da degradação familiar dos Valastros é a perda do lar, isto é, a casa dos Valastros penhorada pelo banco. O Banco Fidonia emite uma ordem de despejo, executando a hipoteca para alienar a casa. Os banqueiros de Catania, o espectro do capital financeiro que perseguia o empreendimento dos Valastros, aparecem, finalmente, para fechar o círculo da degradação moral-fisica dos Valastro. A cena dos senhores vindo executar a hipoteca é uma das mais marcantes do filme. A expropriação do território do lar é a despossessão absoluta. O despejo, a retirada dos quadros da parede, enquanto o sino toca, possui significados candentes de uma situação-limite como a morte. O narrador se impõe expressando a desgraça dos Valastro.

Na situação de desgraça total, o amor é impossível. Mara se despede de Nicola, seu amor impossível, seja na riqueza, seja na pobreza.

Enquanto isso, algumas cenas finais são interessantes. A prosperidade dos capitalistas de Trezza é evidente. Por exemplo, é curiosa a cena de lançamento de novos barcos que recebem o nome de uma baronesa local. Ela é que batiza os barcos. É a expressão magistral da aliança entre o moderno e o arcaico no capitalismo italiano. Diz o capitalista que os barcos darão trabalho a dez tripulações. Constatamos que ampliou a capacidade de acumulação dos capitalistas comerciais de Trezza. Por outro lado, em seu discurso, o burguês faz a critica de quem busca trabalhar por conta própria.

Outra cena interessante é a cena quem N’toni vai rever seu velho barco e fala de sua sina. É dentro de si que N’toni deve achar coragem para recomeçar. Enfim, o fênix renasce. N’toni decide recomeçar. Como no romance dos Malavoglia, N’toni decide ficar e lutar. Ele se recusa a partir para outras terras.

 


A cena final é N’toni com os dois irmãos pequenos (Vanni e Alfio) aparecendo no local de venda e transporte de peixe, a Cooperativa Ciclope, buscando trabalhar nas novas tripulações dos barcos. Enfrenta a gozação dos mercadores do mar. “Vê que suas idéias não funcionam?”. Na parede, frases de Mussolini, demonstram que o poder local é fascista. Carmelo, um dos mercadores, ri dos miseráveis que tem que suportar a gozação deles. Novamente a frase: “o mar é amargo...”. A tomada final é Mara pendurando os quadros na parede do novo lar e o jovem N’toni voltando a trabalhar no mar, explorado pelos capitalistas.


Giovanni Alves
(2006)


(ATENÇÃO: Esta análise de filme é parte do Projeto de Extensão Tela Crítica 2004)