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A
Terra treme,
(La Terra Trema)
de Luchino Visconti
(1948)

Eixo
Temático
Em
seu processo de desenvolvimento sócio-metabólico,
o capitalismo constitui a alienação do trabalho
vivo e da força de trabalho dos meios de produção
da vida material. É o que podemos denominar de proletarização
do trabalho e constituição da condição
de proletariedade. É no interior desta condição
de proletariedade que se pode constituir (ou não) a classe
do proletariado e a consciência de classe contigente e
necessária. Todo trabalhado assalariado pressupõe
uma precariedade que decorre desta alienação estrutural
que funda a condição de proletariedade. No processo
histórico de luta de classe, o trabalho vivo pode conquistar
melhores salários e condições de trabalho,
além de direitos sociais que colocam obstáculos
à sanha de valorização do capital. Mas
sob determinadas circunstâncias históricas, a ofensiva
do capital pode debilitar e degradar salários, condições
de trabalho e direitos da classe trabalhadora obtidos no decorrer
da luta de classes. É o que podemos denominar de processo
de precarização do trabalho que tende a constituir
uma nova institucionalidade para a exploração
da força de trabalho (o que podemos denominar de nova
precariedade do trabalho).
Temas-chaves:
trabalho, capitalismo, proletarização, estranhamento,
precariedade e precarização do trabalho.
Filmes
relacionados: “Vinhas da Ira”, de John Ford;
“Ladrões de Bicicleta”, de Vittorio De Sica;
“Segunda-Feira Ao Sol", de Fernando León de
Aranoa.
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Análise
do Filme
O
filme de Luchino Visconti, “A Terra Treme”, de 1948, expõe
com vigor neorealista, aspectos da proletariedade de trabalhadores do
mar, pescadores da cidade de Acitrezza, litoral da Sicília (Itália),
uma das regiões mais pobres do País (inclusive, nos créditos
do filme a interpretação principal é dada aos pescadores
sicilianos). Revoltado com a exploração dos comerciantes
de peixe, o jovem ‘Ntoni tenta convencer seus colegas pescadores
a trabalhar por conta própria. Se em “Vinhas da Ira”,
John Ford nos mostra o drama da proletarização e da proletariedade
extrema de catadores de frutas nas fazendas capitalistas da Califórnia;
e em “Ladrões de Bicicleta”, Vittorio De Sica nos
mostra uma crônica trágica da proletariedade de um recém-empregado
como colador de cartezas que tem a sua bicicleta, seu instrumento de
trabalho e condição de emprego, roubada, o cineasta Luchino
Visconti expõe, em “A Terra Treme”, outra crônica
trágica da proletariedade de trabalhadores do mar, super-explorados
pelos comerciantes de peixes na Sicília (Itália), que
anseia contornar a exploração da força de trabalho
através do trabalho por conta própria.
Luchino Visconti trata em “A Terra Treme”, de um anseio
contingente do proletário que vê como saída para
sua condição alienada, tornar-se pequeno proprietário.
O anseio pela emancipação do trabalho alienado ocorre
através da saída individual (ou familiar) de ‘Ntoni
que almeja tornar-se proprietário de seus meios de produção.
É ele que irá representar um anseio contingente (e limitado)
de parcela de trabalhadores proletários. Ao fracassar em seu
intento, ‘Ntoni demonstrará que não apenas o mar
é amargo, mas o mercado é cruel. Ele não perdoa
aqueles que ousam enfrentar os elementos da ordem estrutural do capital.
Os Valastros são amaldiçoados pelo destino, porque ousaram
pensar de forma diferente e enfrentar, sozinhos, o mundo da injustiça
social e da dominação do capital.
O filme contém, mais do que os demais filmes em análise,
uma mensagem ideológica: não há saída para
aqueles que almejam por si só enfrentar a ordem capitalista e
os constrangimentos do mercado. O fracasso dos Valastros é, de
certo modo, o fracasso da ideologia do empreendendorismo que ilude os
proletários com a idéia do trabalho por conta própria
como saída para a supereexploração da força
de trabalho e mesmo do desemprego.
É claro que em “A Terra Treme” a busca pelo trabalho
por conta própria ocorre numa situação de contornar
a exploração estranhada e não de enfrentar o desemprego
em massa. Naquela etapa de desenvolvimento capitalista, a promessa do
emprego continha em si, para largos contingentes do mundo do trabalho,
elementos de superexploração e de degradação
do trabalho. N’toni Valastro buscou o trabalho por conta própria
não porque estivesse desempregado, mas porque se sentia indignado
com a superexploração da força de trabalho. Ao
invés de constituir uma organização sindical e
política para enfrentar a dominação do capital
(o que, nas condições de uma região atrasada do
Sul da Itália, dominada pelo poder truculento da oligarquia local,
era deveras temerário), optaram pela saída pequeno-burguesa:
montar um pequeno negócio. É o que muitos hoje buscam
através do empreendendorismo, não para contornar, muitas
vezes, a superexploração do trabalho, mas sim, como alternativa
ao desemprego estrutural e de massa. Nesse caso, tornam-se patrões
de si mesmo, como os Valastros.
Na abertura do filme temos a seguinte mensagem: “Os fatos deste
filme ocorrem na Itália, precisamente na Sicília, na cidade
de Acitrezza, perto de Catania. É a velha história da
exploração do homem pelo homem. As casas, as ruas, os
barcos e o povo são de Acitrezza. Todos os atores foram escolhidos
no meio do povo: pescadores, lavradores, pedreiros e mercadores. Usam
seu dialeto para expressar sofrimento e esperança, pois na Sicília
o italiano não é a língua falada pelos pobres.”
No decorrer do filme uma voz narra os acontecimentos do cotidiano da
família de pescadores pobres dos Valastros. Na abertura, o sino
da Igreja de Acitrezza avisa ao alvorecer a chegada dos pescadores do
mar, depois de uma noite de trabalho. A primeira tomada é da
Igreja imponente da pequena vila de Acitrezza. A Igreja quase que olha
para o mar. Uma voz exclama: “Desta vez o mar foi generoso”.
Diz o narrador: “Como sempre, os primeiros a iniciar o dia em
Trezza são os mercadores de peixe que vão para o mar quando
o sol ainda nem nasceu. Porque, como toda noite, os barcos foram para
o mar e retornam ao amanhecer com a parca pescaria. Quando há
peixe é possível sobreviver em Trezza. De avô para
pai e para filho sempre foi assim.” Alguém diz: “Foi
uma boa pescaria”.
O narrador do filme nos apresenta os elementos constitutivas da narrativa
de “A terra treme”. Num primeiro momento, a dimensão
da produção social. O fundamento material do ser social
de Acitrezza é o trabalho, isto é, o trabalho de pesca,
executado de forma artesanal, pelos proletários do mar.
Num segundo momento, Visconti apresenta as habitações
rústicas da cidade, o lar dos proletários pobres de Trezza.
Surge uma casa com destaque, a dos Valastros. Diz o narrador: “Uma
casa como tantas outras, construídas com pedras. Suas paredes
são tão antigas quanto a profissão de pescador.
A esta hora, bem cedo, a casa acorda. É a casa dos Valastro.”
Os homens da casa foram trabalhar no mar. Em casa, logo ao amanhecer,
em sua faina cotidiana, surgem as mulheres da casa, trabalhadoras do
lar, fazendo a faxina do espaço doméstico.
É interessante observar que, primeiro, Visconti apresenta o trabalho;
depois, a casa, a instância sócio-reprodutivo, descrevendo
seus elementos materiais (as pedras antigas que a constituem as paredes,
etc) e seus elementos humanos: as mulheres que fazem a faxina da casa
dos Valastros. Diz o narrador: “Enquanto trabalham, as mulheres
pensam em seus homens que retornam do mar, porque sempre há um
barco no mar desde os primeiros Valastros. Pensam no avô, no irmão
e também no pai que certa manhã não voltou do mar.”
O elemento humano é constituído de memória. A cena
em que Lucia interrompe um pouco a faxina para vislumbrar uma fotografia
na parede é oportunidade para conhecermos a família Valastro.
É interessante que, é através de um quadro de fotografia
familiar com conhecemos os Valastro. São as mulheres da casa
que nos apresentam pela primeira vez os homens da família, trabalhadores
do mar, aqueles que sustentam o lar. Como diz o narrador: “Pensam
no avô, no irmão e também no pai que certa manhã
não voltou do mar”. A irmã mais velha pergunta a
Lucia: “O que está olhando?” E ela responde: “Nossos
irmãos. Sempre penso neles, como pensava no papai no dia que
ele não voltou”. É Lucia que fica relembrando os
tempos inscritos nas fotografias que guardam boas recordações.
A fotografia é um referente de memória da família,
que nos projeta noutro espaço-tempo. Diz Lucia: “Lembra
da foto que tiramos em Catania? Veja N’toni no uniforme de marinheiro.
Cola e Vanni usando a primeira calça comprida. Alfio e vovô.
Estão todos no mar. O mar é amargo”.

Através da fotografia familiar, tirada em tempos idos na cidade
grande, em Catania, Lucia evoca, por um breve momento, as lembranças
do passado (um detalhe: N’toni prestou serviço militar
na Marinha. Por isso, está com uniforme de marinheiro). E logo
a seguir, a memória da família se confunde com o mundo
do trabalho, que é parte íntima deles, da família
Valastro. Lucia diz: “Estão todos no mar” e a seguir
a frase: “O mar é amargo”, expondo a dura luta pela
existência dos Valastro, através de uma atividade que não
apenas é extenuante em si, mas que expõe elementos de
uma aguda exploração da força de trabalho dos pescadores.
A frase “o mar é amargo” possui, deste modo, um duplo
sentido: um sentido natural, da natureza inóspita que se impõe
sobre homens que tiram dela seu sustento (é a dimensão
do trabalho como objetivação/exteriorização
ou alienação, no sentido positivo); e um sentido social,
do processo de trabalho estranhado, onde os proletários do mar
são alienados do produto de sua atividade dura e extenuante.
Até
agora, Visconti nos expôs o trabalho em si, a família Valatro
e suas memórias, através da reminiscência das mulheres.
Depois, temos um corte da casa para uma tomada ampla dos pescadores
na praia, recolhendo seus instrumentos de trabalho e o produto de sua
atividade. É uma tomada panorâmica que expõe o trabalho
coletivo dos pescadores. É um conjunto complexo de homens, jovens,
adultos e crianças, imersos em suas tarefas após a pescaria
da madrugada. É um trabalho exclusivamente masculino. O contraste
entre a imagem da Igreja ao fundo, e o complexo de trabalho que se instaura
na beira do mar, expõe, por um lado, a ampla (e complexa) divisão
do trabalho, e por outro, laços tradicionais que marcam aquela
comunidade de pescadores, embora a presença da Igreja só
ocorra no filme através do tilintar do sino.
“Cuidado vão rasgar as redes”, diz alguém,
talvez um supervisor do grupo de trabalho que acompanha os pescadores
nesta etapa. Os pescadores recolhem as redes, seus instrumentos de trabalho.
E depois, retruca mais uma vez mais o supervisor: “Cuidado com
os barris”. Ele se preocupa com os instrumentos de trabalho e
com o produto da pescaria, as anchovas, que devem ser recolhidas em
barris. A seguir, a voz do narrador nos introduz, pela primeira vez,
no universo da insatisfação com o regime de trabalho.
O trabalho dos pescadores é um trabalho estranhado. Diz a voz:
“‘O mar é amargo’, disse Lucia. E o trabalho
também, já que o lucro é dos mercadores. É
preciso pagar os homens, remendar as redes e fazer a manutenção
dos barcos. Todas as despesas recaem nos ombros dos pescadores enquanto
so atacadistas enriquecem sem fazer força, comprando por nada
o peixe pescado com tanto suor.” Eis, pela primeira vez, no filme,
a exposição da exploração da força
de trabalho na comunidade de pescadores de Acitrezza. Após expor
através de imagens, o trabalho em si, o lar e a memória,
volta-se para a apresentação do trabalho e se destaca
o que há por trás da amargura do mar. Como salientamos,
não é só mar que é amargo, devido a natureza
do trabalho do pescador que investe tanto suor para enfrentar a natureza
indômita do mar; mas o trabalho é amargo tendo em vista
que o trabalho é atividade estranhada, quase uma segunda natureza
que se impõe há séculos aos homens.
Como se disse na abertura do filme, “É a velha história
da exploração do homem pelo homem.” O trabalho dos
pescadores é trabalho estranhado por que o lucro, isto é,
o excedente, é dos comerciantes e não dos trabalhadores
do mar. A frase é forte: “Todas as despesas recaem nos
ombros dos pescadores enquanto os atacadistas enriquecem sem fazer força,
comprando por nada o peixe pescado com tanto suor”.
Eis a síntese da exploração da força de
trabalho na indústria da pesca em Acitrezza. Os trabalhadores
não têm a propriedade (e o controle) dos meios de produção.
Eles não são proprietários dos barcos, embora os
instrumentos de trabalho - redes e outros apetrechos utilizados no trabalho
de pesca sejam deles. Aliás, os custos da manutenção
dos barcos, remendo das redes e gastos com auxiliares de pesca são
atribuídos a eles. Os pescadores são obrigados a vender
para os atacadistas – provavelmente os proprietários dos
barcos – o produto da pescaria, os peixes, há um preço
ínfimo, Os atacadistas, como diz o narrador, compram por nada
o peixe pescado com tanto suor. Depois os atacadistas revendem o peixe
em Catania, garantindo um grande lucro. Eis, portanto, o esquema de
exploração que produz e reproduz a miséria dos
pescadores de Acitrezza.
Ao remendar as redes na beira do mar, logo pela manhã, após
a noite de trabalho, os pescadores conversam. Diz Cola, um dos Valastro:
“Isso rasgou tudo. Isso vai levar um mês”. N’toni
observa: “Acha que os chefes se importam?” É o jovem
N’toni Valastro que introduz a dimensão das classes, da
hierarquia social, da exploração de classe e da luta de
classe. Em sua primeira fala, N’toni expressa ser o portador da
consciência de classe contingente entre os pescadores. É
sobre ele que recairá a perseguição cruel das relações
de poder do capital. É N’toni que se interroga: “Acha
que os chefes se importam?”. Sua critica dirige-se aos chefes,
personificações do trabalho estranhado e do capital. E
diz: “Somos burros. Só servimos para o trabalho pesado.”
Outro pescador observa: “Eles nem olham o que pescamos”.
N’toni sugere: “Devíamos vender os peixes em Catania
em vez de enriquecê-los”. Cola, irmão de N’toni,
observa: “Você os ouviu discutindo enquanto descarregávamos?
Era sobre nós”. Outro pescador faz uma observação
espirituosa: “Não se engane. Era sobre nós... era
contra nós. Estão sempre unidos contra nós”.
E N’toni completa: “Somos nós que não discutimos.
É cada um por si, se vendendo por um tostão”.
O que N’toni destaca, neste caso, é que o capital tem o
poder, porque os trabalhadores do mar não se unem, não
discutem o problema da exploração do trabalho. O capital
que nos oprime é nosso próprio poder social alienado,
que se volta contra nós. N’toni sugere a necessidade de
romper com o individualismo crassante, o “cada um por si, se vendendo
por um tostão”. Enquanto os trabalhadores se mantiverem
imersos na consciência cotidiana, no individualismo que não
reflete (e discute) o problema da exploração do trabalho,
continuarão sendo meros burros de carga do capital. A cena se
conclui com Cola, cabisbaixo, observando: “Não devia ser
assim”.
É interessante que, neste momento, N’toni expressa uma
consciência sindical propriamente dita. Entretanto, mais tarde,
ao invés de organizar uma associação de pescadores
para barganhar melhor preço para a força de trabalho e
melhores condições de trabalho, decide constituir um negócio
familiar por conta própria.
Esta primeira cena da praia expõe que, no decorrer do processo
de trabalho, os trabalhadores explorados conspiram contra seus patrões
exploradores (como no filme “A Greve”, de Serguei Eiseinstein).
A consciência de indignação contra a exploração
do trabalho nasce no interior da própria atividade do trabalho
estranhado. Ao costurarem as redes rasgadas no decorrer da pescaria
da madrugada, os trabalhadores do mar discutem e socializam sua indignação.
É claro que há um trabalhador que expressa, através
de sua fala, o máximo de consciência possível de
classe daquele coletivo proletário. É o caso de N’toni
Valastro. Aos poucos, apreendemos o sistema de exploração
em que estão imersos os pescadores artesanais de Acitrezza. Na
verdade, é uma exploração que se realiza, como
salientamos acima, no processo de circulação. Isto é,
a exploração se manifesta quando os produtores vendem
no leilão de peixes em Acitrezza, para os mercadores, o produto
do trabalho a um preço inferior àquele que vale; e também,
quando são obrigados a arcar com os custos de manutenção
do meio de trabalho (os barcos), além é claro, de terem
que pagar um aluguel por ele. Ora, o que sobra para os pescadores é
muito pouco.

É
interessante uma análise do modo de exploração
do trabalho dos pescadores em Acitrezza. Ele se distingue, por exemplo,
da forma de exploração do servo feudal e da forma de exploração
do trabalhador assalariado propriamente dito. É uma exploração
que se manifesta, por exemplo, através da troca desigual e dos
custos diretos (aluguel) e indiretos (de manutenção) dos
meios de trabalho que recaem sobre os proletários do mar. Na
verdade, o mundo social de Trezza é um mundo de vendedores de
produtos-mercadorias (logo no inicio do filme, crianças vedem
frutas buscanbdo obter alguma renda em dinheiro). Os produtores de Trezza
se intervertem em vendedores de mercadorias. Talvez a exceção
sejam os funcionários públicos, como o policial Salvadote,
os pequenos comerciantes e os capitalistas da indústria da pesca,
donos da Cooperativa de Trabalho que monopoliza a compra dos peixes
e faz a intermediação de mão-de-obra, “alugando”
barcos para a tripulação de proletários do mar.
A cooperativa de trabalho de Acitrezza chama-se “Ciclope”
– venda e transporte de peixe.
Portanto, os proletáros do mar em Acitrezza não vendem
a força de trabalho diretamente, auferindo um salário.
Eles vendem o produto do trabalho no mercado, obtendo um valor em dinheiro
que, após descontar os custos diretos e indiretos dos meios de
trabalho, sobra muito pouco. É deste modo que eles têm
a percepção da “exploração”
dos mercadores de peixe, daqueles que não pagam um “justo
preço” pelo produto de suas atividades laborais.
O que se coloca, no horizonte ideológico dos pescadores é
o ideal de justiça social e de um salário justo. Este
é, de certo modo, o horizonte da economia política, que
com Von Thünen, por exemplo, estava preocupado em investigar os
princípios morais e econômicos que determinam o “salário
natural” e, portanto, o salário justo do trabalhador. É
deste horizonte ideológico, de produtores-vendedores de mercadorias,
onde a forma-mercadoria impregna a consciência de classe contingente,
com suas disposições particularistas/individualistico-familiar,
que tende a surgir a base material para a ideologia do empreendendorismo.
Assim, como podemos verificar, a exploração dos pescadores
em Trezza não é como a exploração dos servos
da gleba, no modo de produção feudal, onde as relações
de dependência pessoal constituíam a base social daquela
formação societária. No feudalismo, como observou
Marx, “em vez do homem independente, encontramos aqui todos dependentes
– servos e senhores feudais, vassalos e suseranos, leigos e clérigos.
A dependência pessoal caracteriza tanto as condições
sociais da produção material quanto as esferas de vida
estruturadas sobre ela.” E prossegue ele: “Mas, justamente
porque relações de dependência pessoal constituem
a base social dada, os trabalhos e produtos não precisam adquiri
forma fantástica, diferente de sua realidade.” (MARX, 1985).
Ora, o trabalho e produtos dos servos da gleba entravam na engrenagem
social como serviços e pagamento in natura: “A forma natural
do trabalho, sua particularidade, e não, como na base da produção
de mercadorias, a sua generalidade, é aqui sua forma diretamente
social.” E salienta: “A corvéia mede-se tanto pelo
tempo quanto o trabalho que produz mercadorias, mas cada servo sabe
que é certa quantidade de sua força pessoal de trabalho
que ele despende no serviço do seu senhor. O dízimo a
ser pago ao cura, é mais claro que a benção do
cura.” (MARX, 1985)
Ao expor a natureza do trabalho do servo da gleba, Marx buscava demonstrar
a intransparencia (e opacidade) das relações de exploração
capitalista constituída sob a forma-mercadoria. Na medida em
que os trabalhos e produtos na sociedade capitalista adquirem a forma-mercadoria,
eles adquirem “forma fantástica, diferente de sua realidade”.
É o fetichismo da mercadoria que tende a ocultar a exploração
da força de trabalho. Isto é, a mais-valia não
está clara para o operário – a exploração
não aparece com tanta clareza – inclusive, palpabilidade
- como a exploração do servo da gleba. Como disse Marx:
“O dízimo a ser pago ao cura, é mais claro que a
benção do cura” (a força de trabalho como
mercadoria é o trabalhador livre – se é livre, como
pode ser explorado?).
Ora, em Acitrezza, a indústria da pesca é um processo
de produção de mercadorias baseado em relações
de trabalho onde os proletários do mar, apesar de não
serem proprietários dos meios de produção, ainda
tem a posse (e o controle) dos meios de trabalho. São quase artesãos
do mar. Por outro lado, os trabalhos e produtos da atividade dos pescadores
do mar entram na engrenagem social como mercadorias vendidas no mercado.
O peixe, trabalhos e produtos da atividade dos proletários do
mar, são levados pelos próprios pescadores, para o mercado
e trocados por dinheiro. Os comerciantes monopolizam o comércio
de peixe local. Na verdade, é um falso leilão de peixes.
É neste momento que se manifesta através da circulação,
da troca desigual, a “exploração”. Torna-se
clara para os proletários-vendedores de mercadorias a injustiça
cometida no ato da compra. Os proletários, vendedores de mercadoria,
não auferem um “preço justo”. É através
da troca desigual que os mercadores “sugam” a mais-valia
(ou, para ser mais preciso, o excedente de valor) produzida pelos proletários
do mar. A desvalorização do preço do peixe, causa
a indignação do pescador, pois os proletários do
mar vêem naquele produto-mercadoria sua própria força
de trabalho cristalizada. Desvalorizá-las é desvalorizar
a si próprios, isto é, desvalorizar seu trabalho coletivo,
tendo em vista que o peixe é produto de um processo de trabalho
coletivo.

Em “A terra treme”, Visconti nos apresenta in loco o elemento
central do sistema de exploração dos trabalhadores do
mar em Acitrezza. É a cena do leilão de peixes, onde os
mercadores compram os peixes dos trabalhadores, pagando um valor abaixo
do que eles valem. Primeiro, procuram desvalorizar a qualidade do produto
e oferecem um preço ínfimo para poderem depois, revender
o pescado em Catania a um preço bastante superior. Um dos mercadores
diz: “É a pior cavalinha que já vi!”. Outro
diz: “terei sorte se vender! As fábricas têm reclamado”.
Enfim, os mercadores manipulam os pescadores, pessoas rudes que não
têm para quem vender o produto de seu trabalho. Caso não
consigam vendem para o cartel local, não vendem seu produto que
se deteriora com facilidade. Os pescadores sabem que estão sendo
roubados. Um deles exclama: “Cuidado com a balança! Está
desequilibrada! Vai me roubar”. E o mercador retruca: “Cuidado
com a língua, se quiser negociar comigo!”. Os mercadores
se aproveitam da vantagem monopólica na distribuição
para se apropriarem do valor produzido pelos produtores diretos, os
trabalhadores do mar: “50 por tudo! É pegar ou largar!”,
diz um dos mercadores.
Portanto, Luchino Visconti nos mostra, neste primeiro momento, a tese
do filme: a negação do trabalho proletário, reduzindo
a uma situação de indignidade humana. É claro que,
numa exposição dialética, à tese do filme
se segue uma antítese, uma suposta “negação
da negação”. Iremos verificar a seguir, os limites
desta “negação da negação” que
nos conduz a uma síntese trágica. É o que veremos
mais adiante.
Aos poucos fomos levados ao sistema de exploração do trabalho
que sufoca a existência da comunidade de pescadores locais. É
um fardo secular que se reproduz há gerações, como
podemos perceber. Poucos se levantam contra os predadores da força
de trabalho dos pescadores. Após a cena do leilão de peixe,
Visconti nos mostra a volta para casa dos Valastro, após a pescaria
e o leilão dos peixes coletados no processo de trabalho daquele
dia.
É interessante que na cena da volta dos Valastro para casa, aparecem
crianças vendendo tangerinas para os Valastro. De fato, Acitrezza
é um mundo de vendedores de mercadorias que expõe, por
um lado, a miséria proletária, obrigada a auferir renda
através da circulação de produtos-mercadorias (o
caso das crianças que vendem frutas aos Valastro); por outro
lado, a presença de uma oligarquia proprietária parasitária
e predadora que “suga” o valor produzido pelo mundo do trabalho
de Trezza (o caso dos trabalhadores do mar de Trezza). A jovem da casa
lamenta que as tangerinas estão muito caras.
Ora, os Valastros estão imersos na teia mercantil que os sufoca.
Vendem o produto do trabalho a um preço ínfimo e falta-lhe
renda para comprar produtos-mercadorias de outros vendedores. O mundo
de Acitrezza é constituído, deste modo, por produtores
coletores e vendedores de mercadorias. A atividade de pesca é
uma atividade de coleta propriamente dita (a produção
se dá através da coleta de “produtos” da Natureza).
A pescaria é atividade milenar que surge no alvorecer da hominidade.
É claro que hoje, a produção do peixe é
cada vez mais marcada por elementos de socialidade no sentido de que
o peixe coletado é literalmente produzido pelo homem, através
de técnicas de criação laboratoriais e industriais.
Poderíamos dizer que hoje, em sua maior parte, é uma coleta
industrializada que se distingue da pescar artesanal onde o trabalhador
do mar se lançava no mar indômito para coletar peixes.
É interessante que Visconti tenha escolhido o tema de produtores
coletores para expor o drama social da proletariedade imersa numa forma
particular de exploração, uma “exploração”
que se dá através da troca desigual e onde o poder de
barganha se impõe através das relações de
propriedade e prestigio local.
Na chegada em casa, os homens da família Valastro carregam o
fardo de seus instrumentos de trabalho. Diz o narrador: “12 horas
de trabalho estafante. E não trazem para caso o mínimo
para matar a fome. No entanto, quando puxaram as redes, elas estavam
cheias. O pensamento de não ganharem para saciar tantas bocas
continuará a angustiá-los e envenenará as poucas
horas de descanso.”
Mais uma vez, o narrador, nos coloca no centro da problemática
do filme: a percepção e sentimento da exploração
do trabalho, percepção e sentimento que se dissemina pelas
relações sociais dos proletários do mar; seja no
local de trabalho, onde lamentam a indiferença da chefia que
está sempre contra eles; seja no lar, onde constatam, cabisbaixos,
que não trazem o mínimo para saciar a fome. A angústia
da exploração, sentida com maior intensidade pelos mais
jovens, diz o narrador, “envenenará as poucas horas de
descanso”. Ora, existe uma percepção e sentimento
de aguda injustiça que o narrador expõe através
desta singela frase: “...não trazem para caso o mínimo
para matar a fome. No entanto, quando puxaram as redes, elas estavam
cheias.” É uma frase singela que traduz a problemática
de Marx nos “Manuscritos de 1844”. Diz ele: “O trabalhador
se torna tanto mais pobre quanto mais riqueza produz, quanto mais a
sua produção aumenta em poder e extensão.”
(MARX, 2005) Eis a problemática crucial da proletariedade, a
partir da qual irá se expor o problema do trabalho estranhado,
propriedade privada/divisão hierárquica do trabalho e
exploração propriamente dita.
É através do trabalho, atividade de luta pela existência,
que os Valastros obtêm a renda monetária indispensável
para a sobrevivência familiar. Acitrezza é uma sociedade
mercantil de economia monetária (por exemplo, numa das cenas
do filme, o avó Valastro distribui o dinheiro ganha entre os
homens da casa...). O intercâmbio deles com a Natureza socializada
é determinados pelo quantum de renda monetária obtida
através do “salário”, que, no caso dos proletários
do mar, aparece como a renda obtida através da venda de seus
produtos no leilão de peixes. Num certo momento, o cálculo
do ganho do trabalho. O jovem Cola Vaslastro pergunta: “Vovô,
quanto ganhamos hoje? Umas 15500 liras?”. Diz ele: “Pescamos
11 Kg de cavalinha e ganhamos 7750 liras”. O jovem N’toni
exclama: “A história de sempre. Trabalhamos a noite toda
e eles lucram.” O velho Valastro observa: “Sempre foi assim,
desde que me lembro.” E N’toni salienta: “Não
pode continuar assim”.
Pela primeira vez, observamos com vigor no filme o conflito de gerações.
O avô Valastro expressa o acomodamento com a situação
de exploração, considerada quase como uma “segunda
natureza”. Mas o jovem N’toni se insurge e não aceita
isto: “Não pode continuar assim”, exclama. São
experiências geracionais que divergem no trato das relações
de exploração que se acumulam no tempo-espaço de
Acitrezza. Os velhos vêem as coisas de olho modo.

O avô estranha a atitude do neto N’toni. Pergunta: “Cola,
o que há com Ntoni?”. O irmão de Ntoni observa:
“Desde que prestou serviço militar não suporta injustiça.
Ele não pensa mais como nós. Pensa diferente.”.
É uma observação importante que a atutude do jovem
N’toni expressa uma sociabilidade mais complexa, mais rica em
relações sociais, uma sociabilidade mais social, não
restrita ao pequeno mundo provinciano da aldeia de Acitrezza. O serviço
militar na Marinha abriu para N’toni Valastro a oportunidade de
contato com o mundo dos homens, talvez para o mundo da luta de classes
e da luta pelos direitos dos trabalhadores. Enfim, para além
da aldeia de Acitrezza existe um mundo social de luta contra a exploração
do capital. N’toni formou sua humanidade proletária de
outro modo, sentindo-se incomodado, em seu intímo, contra o sistema
de exploração. Por isso, ele exclama: ““Não
pode continuar assim”. Isto é, um outro mundo é
possível.
A experiência vivida de N‘toni o leva a pensar de forma
diferente os problemas do mundo social. É como se ele, em sua
experiência singular, rompesse com o lastro de tradições
do passado que contribuíram para o consentimento à exploração
secular do trabalho. O velho Valastro observa: “Há 70 anos
penso do mesmo jeito, e deu tudo certo.” E exclama: “N’toni,
escute os mais velhos. Como os antigos dizem: a força da juventude
e a sabedoria da idade.”
É
importante destacar que, um dos elementos marcantes do filme, que constitui
a experiência da consciência de classe dos proletários
do mar, é o conflito geracional que expõe uma verdade.
Isto é, a consciência de classe é determinada, em
suas múltiplas configurações perceptivas (e afetivas),
pelas experiências geracionais (além, é claro, das
experiências de gênero, de etnia e de credo religioso).
“A terra treme”, de Luchino Visconti, é um filme
que trata não apenas da exploração de proletários
do mar, mas, de forma concreta, da sua consciência de classe contingente.
No filme de Visconti, o que se torna claro, em vários momentos,
no tocante a atitude dos jovens Valastro (N’toni e Cola) é
uma ruptura com o lastro do passado que pesa, como um fardo, sobre o
mundo dos homens. O jovem N’toni ao se rebelar (e romper) com
os antigos patrões, os mercadores de Trezza, não apenas
ousa atentar contra as relações de poder e dominação
do capital, mas também contra a cosmovisão da familia
Valastro, o imaginário de uma tradição e percepção
secular de que “os mais velhos são mais sábios”
ou ainda de que “o que sempre foi assim não deve ser mudado”.
O jovem N’toni se insurge, portanto, contra uma consciência
ingênua, elemento compositivo do sistema de controle sócio-metabólico
do capital em Trezza.
Enfim, o jovem N’toni, como Prometeu, herói mítico
da Grécia Antiga que ousou divergir de Zeus, enfrenta o poder
do capital e seu sócio-metabolismo secular. Ele paga caro pela
empreitada heróica. Mas o fracasso de sua atitude insubmissa
e o final trágico de sua rebeldia familiar não invalida
sua nova visão de mundo. É isso que o capital quer imputar
a ele, isto é, o fracasso dos Valastro é um exemplo para
aqueles que ousam querer mudar o mundo. A classe dominante de Trezza
aproveitou a tragédia dos Valastro para disseminar a idéia
de que, o que sempre foi assim não deve ser mudado, sob pena
da maldição dos deuses. Mas, o fracasso de N’toni
Valastro expressa menos o desvalor de sua nova atitude insubmissa que
acreditou que era possível mudar o mundo da exploração
do capital do que os limites da ação meramente particularista,
submetida à contingência do mundo social e mundo natural
Na verdade, a demonstração de insatisfação
dos jovens Valastros conclui o que poderíamos considerar o momento
da tese do filme. Nesta primeira fase, delinearam-se os elementos contraditórios
da narrativa, exposta em suas múltiplas dimensões. O trabalho,
a cidade e o lar. Visconti expõe a insatisfação
dos pescadores no processo de trabalho e que se prolonga no lar, após
constatar o ganho de miséria que auferiram no dia. O que está
claro no primeiro momento da narrativa é a aguda percepção
da exploração do trabalho.
Além disso, no primeiro momento do filme, observamos uma dupla
função da memória, primeiro como referente do passado,
nas lembranças de Lucia e, segundo, a memória que aprisiona
homens e mulheres aos constrangimentos do presente, como podemos verificar
através da fala do velho Valastro, que condena a rebeldia do
jovem N’toni. De um lado, reminiscências que ligam o espírito
de família dos Valastro, expressos nas fotografias penduradas
na parede; de outro, experiências geracionais de trabalhadores
do mar, onde os mais velhos alimentam a ideologia da dominação
do capital.
Como salientamos, existem elementos de contradição na
experiência vivida do jovem N’toni. Por um lado, ele expressa
a outra geração, como, por exemplo, seu irmão Cola.
Mas N’toni Valastro é uma personalidade singular que transcende
o espaço-tempo do metabolismo social em Acitrezza. Como observamos,
N”toni serviu o serviço militar e conheceu novas terras.
Ele sabe que o mundo é grande. Cola concorda com ele. São
os jovens Valastros que indicam através desta rebeldia familiar
latente a perspectiva de negação da negação
da condição de proletariedade.
O filme “A terra treme”, de Luchino Visconti expõe
as dimensões da condição de proletariedade dos
trabalhadores do mar em Acitrezza. Como salientamos, retrata o processo
de trabalho, as angústias da exploração e a rebeldia
dos jovens homens da família Valastro. As mulheres ficam cuidando
do lar, recepcionado os homens provedores que chegam do mar. Depois
de uma longa jornada de trabalho, N’toni se dirige para a casa
da amada, a jovem Nedda. Nesse momento, Visconti expõe a cotidianidade
dos afetos e dos sonhos românticos (e sexuais) que perpassam o
cotidiano duro dos trabalhadores de Acitrezza. Além da relação
afetiva de N’toni com Nedda, temos a paixão contida de
Mara, irmã mais velha de Ntoni, pelo pedreiro Nicola; e o flerte
sedutor de Salvatore, o policial, por Lucia, jovem irmã de N’toni.
Preenchendo o cotidiano dos proletários do mar de Trezza, a canção
lamentosa que acompanham as cenas de sonho afetivo dos personagens.
Elas expressam uma experiência de classe para além do processo
de trabalho. É o lado da reprodução social marcada
pelas utopias emocionais, principalmente das mulheres, imersas em trabalho
doméstico. Na verdade, a canção popular em “A
terra treme” é um lamento que expõe, no plano do
afeto, a dimensão da alienação, da perda e da busca
irremediável pelo objeto amado.
Na medida em que se contrasta com o trabalho estranhado que organiza
a vida de homens e mulheres proletários, o cotidiano do desejo
é outra dimensão da aguda alienação do universo
social de Acitrezza. Por um lado, o desejo, que está situado
em horizontes convencionais. Por exemplo, N’toni anseia casar
e constituir família (“o peixe nasce para quem o come”,
diz ele). As utopias emocionais, eivadas do sentimento do amor romântico
e do canto da perda do objeto amado, aparece como o lado luminoso da
existência dura dos proletários do mar. Existe um lastro
de alienação não apenas no trabalho, mas utopias
do amor romântico e do desejo sexual.
Ora, em “A terra treme”, os Valastros se frustram não
apenas na busca de um trabalho cheio de sentido, mas na busca de um
afeto verdadeiro. Mais tarde, como iremos verificar, N’toni rompe
com a jovem pragmática Nedda, que busca apenas um bom partido;
e Mara não consegue conquistar o coração do vacilante
Nicola.
Deste modo, a narrativa de “A terra treme” é marcada
pelos interstícios da cotidianidade sócio-reprodutiva,
das utopias e sonhos sentimentais caros à perpetuação
das instituições casamento e família. Mas o que
predomina é a cotidianidade da produção, do trabalho
estranhado, da luta pela existência, “uma escravidão
sem saída”, como diz o narrador do filme.
O processo de trabalho do pescador, como todo processo de trabalho heterônomo,
está imerso na rotina. É jogar e recolher a rede, uma
atividade cotidiana que consome as energias laborais de homens velhos
e jovens. Mas o que angustia os Valastro não é o processo
de trabalho em si, a atividade laboral com seu desgaste físico-mental.
Eles são artesãos do mar, que controlam o processo de
trabalho, que executam com primor uma atividade secular, uma profissão
que herdaram como um destino de seus antepassados. O que os angustia
não é o processo de trabalho, mas sim a alienação
do produto do trabalho, expropriado pelos mercadores do mar. “É
preciso muito pexie pela miséria que os mercadores pagam...”,
diz o narrador do filme. Existe, deste modo, um anseio de justiça
social. O que se busca é um preço justo pelo produto do
trabalho – é o horizonte reivindicativo dos Valastro. É
através do mercado que se dá a expropriação
do valor produzido na atividade laboral dos pescadores. É um
ponto importante para apreendermos a natureza do estranhamento do trabalho
dos pescadores de Acitrezza. É ela que irá determinar
a práxis dos Valastro.
Por isso, a escalada de insatisfação conduz os Valastro
a buscarem, num primeiro momento, um confronto com os mercadores, intervindo,
de forma coletiva, no mercado. Querem acabar com a injustiça.
Decidem que são os jovens que vão negociar com os mercadores.
É uma decisão tomada no interior do processo de trabalho,
no espaço de sociabilidade dos artesãos do mar que dialogam
e buscam uma resposta à exploração do trabalho
na qual estão imersos. Estão decididos a não serem
enganados. Como observamos, a exploração que os aflige
é transparente. Não é a exploração
do operário onde a mais-valia está oculta pelo fetichismo,
mas sim, a exploração do produtor cuja excedente é
expropriado através de relações mercantis desiguais.
Não é a exploração do trabalhador assalariado,
cuja mais-valia está oculta dele pela relação justa
do contrato de trabalho Por isso, o horizonte dos pescadores do mar
é o horizonte pequeno-burguês, eivado de idéias
de liberdade, igualdade e justiça social, isto é, da ideologia
do pequeno negócio familiar. É o tipo de exploração
primordial do pequeno artesão expropriado pelo capitalista-comerciante,
proprietários dos meios de produção (como artesãos
do mar, eles possuem os instrumentos de trabalho, mas não os
meios de produção).
No mercado de Acitrezza, ao se insurgirem contra a injustiça
na troca, jogam os peixes no mar. É o primeiro ato de rebeldia
e insubordinação dos Valastros. É um ato coletivo
no qual participam não apenas os Valastro, mas outros jovens
pescadores. Os jovens Valastros, N’toni e Cola, foram os lideres
da rebeldia. Devido suas atitudes, são presos e levados para
Catania.
É interessante que, ao agirem de modo coletivo, insubordinando-se
contra as regras de mercado, os jovens pescadores prefiguraram uma ação
sindical propriamente dita. É claro que não há
sindicato ou associação, mas a atuação deles,
dos Valastros, nesse primeiro momento, é de caráter associativo-político.
É claro que transgrediram a legalidade, tendo em vista que não
apenas paralisaram os mecanismos de mercado e da troca injusta, como
danificaram a propriedade privada, insurgindo-se contra a ordem pública.
É curioso que, nesse primeiro momento, os Valastro, ao serem
presos, atingem o lucro dos mercadores. A cena do dialogo dos mercadores,
numa mesa de fartura, conversando sobre negócios é deveras
interessante. Num certo momento, observam que “a cidade virou
comunista”. Comentam a prisão dos jovens Valastros. Mas
há divergências entre os donos do poder. Um deles, mais
pragmático, pergunta: “Qual a utilidade deles na cadeia?”.
Enfim, a prisão dos pescadores mais jovens, força de trabalho
mais produtiva, prejudica o faturamento e a lucratividade dos mercadores.
Eis a contradição que os Valastros não conseguem
explorar. Os jovens pescadores têm um poder de barganha, mas não
os utilizam. Não se coloca o horizonte da barganha e da negociação,
pois em Acitrezza, não há sujeitos de direito. Eis a tragédia
dos Valastros. É o fechamento político-associativo que
irá implicar, num segundo momento, a saída final dos Valastros:
ter um negócio por contra própria.

Finalmente, os mercadores decidem soltam N’toni e os jovens pescadores
insurgentes que são recebidos com aclamação em
Acitrezza. Menos que um gesto de generosidade, foi um gesto pragmático
dos donos do poder e do capital. Por um momento deixaram claro para
os Valastros que os mercadores não podem ficar sem os pescadores.
Na verdade, a lei pouco importa. Eles desvelam o caráter instrumental
da lei que serve aos poderosos que a utiliza ao seu bel prazer. Concluem
também que “os mercadores precisam de nós”.
Naquele momento, ficou claro para N’toni não apenas o parasitarismo
dos mercadores, que vivem à custa da exploração
injusta dos pescadores, mas sua dependência estrutural para com
eles. Enfim, o capital não vive sem explorar o trabalho vivo.
O trabalho é a fonte da riqueza social e da mais-valia expropriada
pelos donos dos meios de produção. O jovem N’toni
Valastro percebeu isto, com clareza, se interrogando por que os pescadores
não podiam ficar sem os mercadores.
Após ser solto, N’toni vai para o bar comemorar com os
companheiros de luta. Depois, em casa, numa reunião de família,
decidem enfrentar os mercadores, não através da ação
coletiva e de classe, constituindo um sindicato ou associação,
com poder de barganha. Esta seria a saída política propriamente
dita que tem caracterizado a história do movimento operário,
marcada pela constituição das instituições
de defesa do trabalho. Após concluírem que o capital não
vive sem explorar o trabalho vivo e que os mercadores precisam deles,
os Valastros decidem enfrentá-los através da constituição
de um negócio por conta própria, uma ação
familiar-corporativa, que é o horizonte da comunidade de Acitrezza,
constituída em sua maioria, por trabalhadores-artesãos.
Ao decidirem trabalhar sozinhos, os Valastros buscam negar o capitalismo
dos mercadores no interior do próprio capitalismo, disseminando
a economia solidária, constituída por empresas autogestionárias
de natureza corporativo-familiar. É um empreendimento solitário
na aldeia miserável de Acitrrezza.
Naquele momento, mais uma vez se coloca, pela terceira vez, o conflito
geracional. O que Visconti expõe é o peso da tradição
das gerações passadas sobre as gerações
presentes. O velho Valastro lembra a N’toni que há séculos
tem sido assim. Mas N’toni e Cola, após consultar a família,
que é o horizonte associativo possível daqueles proletários-artesãos
do mar, dizem: “Temos que unir contra eles”. Esta frase
poderia ter outro sentido na ótica político-sindical,
mas na perspectiva corporativo-familiar é a ante-sala da tragédia
dos Valastros. Eles fazem uma aposta no mercado. Não buscam negar
o mercado, mas se integrar a ele, buscando uma saída corporativo-familiar.
Na medida em que organizam seus interesses particulares, buscando inserir-se
na concorrência do mercado, permanecem no horizonte da sociedade
civil.
Para montar o próprio negócio, os Valastro decidem recorrer
a um empréstimo no banco para comprar um barco de pesca, seus
meio de produção. Precisam também comprar os insumos,
como o sal, para salgar o peixe e vender em Catania. Para conseguir
o empréstimo, hipotecam a casa própria. O dia glorioso
da família Valastro é o dia de ida a Catania para solicitar
empréstimo ao banco. É o momento em que todos se arrumam
e, em traje formal, se dirigem a cidade. É quase ritual de uma
família proletária que busca se emancipar do trabalho
heterônomo, da subordinação à classe capitalista,
a classe exploradora. Eles visam “abolir” os capitalistas,
tornando-se um deles.
Entretanto,
a rigor, os Valastros não se tornam capitalistas propriamente
dito, pois não se apropriam do produto do trabalho de outrem,
mas sim do próprio trabalho. É uma empresa familiar que
busca ter não apenas o controle dos meios de produção,
mas a apropriação dos resultados da sua atividade de pesca.
É o ideal familiar-artesanal que está no horizonte da
consciência de classe possível dos Valastro (utiliando
o conceito de Lucien Goldmann).
Ao conseguirem o empréstimo bancário, hipotecando a casa
própria, os Valastros compram os meios de produção
da sua atividade de pesca, tornado-se, deste modo, empreendedores. Entretanto,
tornam-se reféns do capital bancário, pois têm que
pagar por mês, uma prestação ao banco, até
a quitação total do empréstimo. Além disso,
submetem-se ao humor do mercado.
A escolha de N’toni e da família Valastro, ao deliberar
“temos que nos unir contra eles”, não implicou, a
rigor, na abolição do capital e do sistema de controle
sócio-metabólico que age sob as costas dos agentes sociais,
instaurando uma sociabilidade da contingência e do acaso. Eles
não se tornaram individualidades pessoais, mas sim individualidades
de classe. Ora, na medida em que estão imersos no jogo do mercado,
não são livres. Existe uma liberdade fictícia.
Num certo momento da narrativa, o narrador de “A terra treme”
observa: “...tudo dá medo quando se vive na miséria”.
De fato, o filme de Luchino Visconti trata de proletários imersos
na miséria absoluta. A situação de proletariedade
extrema possui seu próprio sócio-metabolismo, um metabolismo
social de subjetividades cativas do medo, que paralisam suas vontades
de emancipação. É uma classe em inércia
que reitera o passado de exploração. Aliás, a exploração
torna-se uma “segunda natureza”, um destino manifesto dos
pobres. O medo é o cimento da dominação do capital
em Acitrezza. É expressão do jugo secular do capital que
impregna a memória dos velhos. Por isso, o conflito geracional
ocupa um lugar central na trama narrativa de “A terra treme”.
A discussão entre o velho Valastro e os jovens N’toni e
Cola aparece como a “brecha” que prenuncia a ruptura possível
da dominação secular.
É através do universo familiar, a figura do Pai e do Avó
(a tradição patriarcal é predominante), que se
impõe a Tradição que reitera a memória do
passado de exploração. Nesse caso, Família é
Tradição. Mas a insubmissão dos jovens Valastros
se afirma devido a uma situação particular-concreta da
familia: o pai dos Valastro morrera num acidente de trabalho há
alguns anos. Nesse caso, o “chefe da família” Valastro
é o filho mais velho, N’toni, jovem insubmisso que exerce
hegemonia sobre os demais. O avó, figura apagada, ainda expressa
a Tradição, mas ela não se impõe. Apesar
dos conflitos geracionais, é o discurso de N’toni e Cola
que prevalece. Por isso, uma família sem pai é uma família
numa situação critica, incapaz de reiterar a tradição
e os laços sócio-metabólicos da dominação
do capital. Na medida em que um jovem N’toni é o chefe
de família, a insubordinação aos constrangimentos
sistêmicos tornou-se mais efetiva.
Em Acitrezza, a frase de Auguste Comte, que diz que “os mortos
dominam os vivos”, expressa sua verdade candente. É claro
que a miséria e seu sócio-metabolismo, por um lado, sedimenta
o medo de se lançar para além da “segunda natureza”,
que é a dominação do capital. Mas, ao mesmo tempo,
abre “brechas” no espírito insubmisso da juventude
que ousa acreditar que isto, a coisa, pode ser diferente. É o
caso de N’toni Valastro, jovem que descobriu o vasto mundo, e
quer se lançar por contra própria no negócio da
pesca.
A obtenção do empréstimo bancário e a constituição
do negócio por conta própria da família Valastro
inaugura um segundo momento da narrativa do filme “A terra treme”,
quase uma antítese que nega a tese posta no primeiro momento,
o momento da exploração e da miséria dos pescadores
de Acitrezza. É um momento de felicidade que abre horizontes
de realização pessoal, mesmo no interior da condição
de individualidades de classe. Mas é uma antítese precária,
como iremos ver adiante. Eis a suprema contradição da
antítese do empreendedorismo dos Valastro.
Neste momento do filme, está claro o vinculo entre trabalho e
amor, isto é, ao emancipar-se do patrão, tornando-se patrão
para si próprio, a primeira iniciativa de N’toni é
buscar conquistar Nedda, seu sonho romântico. Ele sabe que sendo
rico, ela o quer. Como homem, a riqueza dá-lhe credencial de
realização masculina, identificada em sociedades patriarcais
com a função de provedor. Pelo menos, Nedda expressa a
jovem pobre, imersa em sonhos românticos, que anseia uma vida
melhor através do casamento. Aliás, o sonho do amor romântico
das mulheres pobres aparece como uma válvula de escape da situação
de miséria humana, dupla miséria humana: a miséria
material e a miséria de gênero, da opressão patriarcal
e da submissão ao homem provedor, lastro secular de opressão
feminina (por exemplo, o sonho do cavalo branco, recitado por Mara para
a pequena Valastro, que adormece).
Mas se a situação de afluência dos Valastro, ao
tornarem-se empreendedores, contribui para aproximar Nedda de N’toni,
afasta, ao mesmo tempo, Nicola de Mara. É a questão de
gênero e de classe exposta acima. Ao tornar-se uma jovem rica,
Mara tenderia a negar o papel de homem provedor e de chefe de família
do pobre Nicola. Não poderia haver amor que os ligasse contrapondo-se
aos papeis sociais tradicionais atribuídos aos jovens amantes.
Estamos tratando de sujeitos imersos ainda na tradição
dos afetos e das relações de gênero patriarcal.
Deste modo, o caso de N’toni/Nedda e Mara/Nicola demonstram que
trabalho e amor possuem vínculos orgânicos, com o primeiro
determinando o horizonte de realização pessoal do segundo.
Estamos tratando de individualidades de classe imersas em constrangimentos
sociais. Os Valastros poderiam “emancipar-se” de uma situação
de trabalho, mas não poderiam emancipar-se de papeis sociais
tradicionais que pesam como um “destino” sobre todos eles:
eis a angústia de Mara que sendo uma jovem rica tenderia a se
distanciar de Nicola.
O processo de trabalho da pesca e de preparação do pescado
na nova empresa Valastro assume outras determinações sociais.
Num primeiro momento, não estamos diante do trabalho estranhado,
embora as atividades da circulação e reprodução
social estejam determinadas pelo controle sócio-metabólico
do capital, como o mercado e Estado, por exemplo. Os Valastros não
são apenas donos dos meios de produção da vida
material. Eles possuem o controle dos instrumentos de trabalho. O que
se impõe na atividade laboral dos trabalhadores do mar é
o desafio heróico do homem enfrentando as forças da Natureza
indômita.
No processo de trabalho da pesca artesanal que aparece no filme “A
terra treme”, se coloca, de imediato, a luta do homem contra a
natureza indomável. As “mediações de segunda
ordem”, que são trabalho assalariado, propriedade privada,
troca, dinheiro, renda, lucro, valor, etc, tendem a ficarem ocultas
pelas “mediações de primeira ordem” (o intercâmbio
sócio-metabólico do homem com a natureza). Pode-se dizer
que na atividade artesanal tende a surgir uma forma de “fetichismo”
ou de estranhamento primordial. A natureza, através da matéria-prima
ou do objeto de trabalho, aparecem como o desconhecido. Nesse caso,
o mar é a exterioridade desconhecida que se impõem aos
pescadores. É preciso enfrentar o mar para que se possam obter
os meios de subsistência do homem.
Além disso, para os Valastros, a atividade da pesca aparece não
como sofrimento, no sentido de exploração, mas como labor,
luta de existência, instância da necessidade que, na ótica
da tradição ancestral, possui um sentido moral: ela fortalece
os homens. O desconhecido, deste modo, contribui para a efetivação
humano-generica.
É o que não ocorre com o fetichismo social do capital,
que prevalece no processo de trabalho estranhado, o trabalho capitalista
propriamente dito, onde o produtor não é proprietário
e não possui o controle das condições objetivas
e subjetivas de produção, onde a “segunda natureza”
se impõe, desefetivando os homens que trabalham. Sob o fetichismo
social, o desconhecido é o que se ignora. Nesse caso, o objeto,
o produto da atividade laboral, aparece como coisa que os constrange.
Por outro lado, a cena da preparação do pescado, que reúne
não apenas os Valastros, mas uma pequena comunidade de ajudantes,
mulheres, homens e crianças, aparece como a prefiguração
do trabalho coletivo como fruição, onde os produtores
aparecem como donos do seu próprio produto da atividade laboral.
Eles cantam “O cisne de Catania”, canção popular
de Vincenzo Belini, felizes, sem o sentimento de exploração
e de alienação.
O terceiro momento da narrativa de “A terra treme”, de Luchino
Visconti é o momento da tragédia dos Valastros. A dialética
do filme é uma dialética trágica. O que parecia
ser uma antítese que pudesse negar a sua condição
de proletariedade dos Valastro, afirmação o núcleo
humano das individualidades pessoais, não se sustenta. O pequeno
negócio vai à derrocada quando uma tempestade destrói
o barco dos Valastros. No filme, o que aparece, num primeiro momento,
é que, o “expropriador” dos Valastros é a
própria Natureza indômita. A tragédia deles é
quase como um castigo dos deuses que penaliza o herói rebelde
que se insurgiu contra a tradição secular. Talvez possamos
culpar o acaso e o azar de N’toni Valastro. Enfim, o mar é
amargo, mas o mercado é cruel. É o espaço da contingência
onde sorte e azar jogam com os destinos dos homens.
É claro que N’toni teve azar. Mas existem determinações
sociais na tragédia dos Valastros. Naquele dia o mar estava ameaçador.
Mesmo assim, N’toni Valastro, que não poderia perder um
dia de trabalho, imerso na obsessão de pagar a dívida
do banco, decidiu enfrentar o mar e confiar na sorte. Temos uma hipótese:
a obsessão de N’toni em quitar sua divida com o banco e
suas próprias qualidades pessoais, como seu caráter insurgente
e coragem heróica, motivos de seu espírito empreendedor,
contribuíram para precarizar a percepção dos riscos
daquela empreitada.
O pescador experiente sabia que não devia se lançar ao
mar naquelas condições temerárias. É uma
percepção que nasce da experiência com a natureza
indomável e do contato cotidiano com o mar e suas “idiossincrasias”.
Inclusive, Bandeira, pescador amigo de N’toni chegara a alertá-lo
dos riscos de lançar o barco de pesca no mar ameaçador.
Mas N’toni parecia cego pela ânsia de livrar-se da espectro
do capital bancário que o perseguia. “Temos que pagar a
dívida”, era o mantra dos Valastro.
Portanto, não podemos culpar o mar ameaçador ou o azar
pela desgraça de N’toni. Haviam constrangimentos sociais
do sistema do capital que o levaram a adotar uma atitude de risco. O
que significa que, o capital e seu sócio-metabolismo não
apenas criam uma sociedade de risco, mas ativa um processo de subjetivação
que impede os agentes sociais proletários de perceberem as dimensões
do risco e as condições ameaçadoras que os cercam.
É quase como uma precarização dos sentidos humanos,
da percepção da realidade das coisas. É, deste
modo, uma elemento da desefetivação do trabalhador assalariado
e do trabalhador por conta próprio imerso nos constrangimentos
do mercado. Na verdade, embora proprietários dos meios de produção,
os Valastros não romperam com o sócio-metabolismo do capital.
A tragédia deles é um elemento do metabolismo do capital.
A tragédia dos Valastro é anunciada pelo tocar dos sinos.
A aldeia de Acitrezza toma conhecimento de que algo terrível
aconteceu no mar. O barco de N’toni não retornara. As mulheres
dos Valastros, vestidas de preto, aguardam os homens nas pedras à
beira-mar, com mantas pretas, buscando identificar no horizonte rastros
do barco de N’toni. Desesperada, Mara busca ajuda em Bandeira,
pescador amigo de N’toni. Depois de horas, o barco aparece. Eles
estavam à deriva abatidos pela tempestade. Em uma noite de tempestade,
perduram tudo o que investiram. A Natureza se insurgira contra eles.
Tiveram azar. Condenados pelo destino. O narrador diz: “Os mercadores
teriam a sua vingança”. Ao retornarem, são recebidos
com o desprezo merecido dos fracassados. Os mercadores riem de satisfação.
“Devia ouvir os mais velhos”, diziam.
No terceiro momento do filme, temos o retorno terrível dos constrangimentos
estranhados contra os quais se rebelaram os Valastros. É um momento
de intensa reação das forças sociais do capital.
Toda revolução contém sua contra-revolução.
Alienados dos meios de produção, os Valastros serão
obrigados a trabalhar como proletários do mar. Os homens Valastros
precisam de empregos. Mas eles serão punidos pelos mercadores
que se negam a empregá-los. Sobre N’toni diz o narrador:
“Não há um cão que o queira em Trezza”.
O terceiro momento da narrativa do filme “A terra treme”,
é marcado pela degradação inelutável da
família Valastro. Imersos no desemprego, passam fome. Não
têm mais renda e o pior, perdem a casa, que estava hipotecada
para o banco. É o retorno terrível da alienação
que se vinga contra aqueles que ousaram atentar contra os deuses da
dominação do capital em Trezza.
Os Valastro ainda têm um estoque de anchovas congelado. É
a última possibilidade de obtenção de renda. Estão
no limiar da miséria absoluta. Os mercadores oferecem apenas
80 liras pelo barril de anchovas. É o revide dos mercadores contra
N’toni. Lorenzo, o mercador, caçoa de N’toni. Em
“A terra treme” se desvela a farsa do mercado como instância
da liberdade e fraternidade. O mercado é o ardil dos poderosos
e dos oligopólios industriais.
O narrador repete o mote da parábola do verme e da pedra: “Dá-me
um tempo que te furo, disse o verme para a pedra”. A pedra são
as relações de exploração e dominação
do capital, que possuem uma dureza como a pedra, que resiste às
intempéries do tempo histórico. Entretanto, o verme é
persistente e busca no tempo um aliado. Na verdade, o filme “A
terra treme” é uma parábola realista sobre a luta
contra a exploração e dominação do capital
nas condições perversas de uma região atrasada
como a aldeia de Trezza, na Sicília. É uma luta árdua,
inglória, sem perspectivas concretas, pois falta-lhes a condição
materiais, de um sujeito coletivo histórico.
Partidos e sindicatos operários não são visíveis
em Trezza. Apenas observamos pichações com a foice e martelo
do Partido Comunista. Mas com certeza a repressão é cruel.
A presença dos fascismo aparece na frase de Mussolini inscrita
na parede da cooperativa dos pescadores, local de agenciamento dos trabalhadores
do mar. Não há horizonte de insurgência política
e de organização popular. Portanto, a insurgência
de N’toni e da família Valastro é uma insurgência
heróica condenada ao fracasso. É a busca individual-familiar
que sucumbe diante das contingências da proletariedade.
A degradação da família Valastro é caracterizada,
por um lado, pela dispersão de seus membros, seduzidos pelos
apelos corruptores do mundo do capital. É como se o universo
familiar dos Valastros se desconstruisse, perdendo sua coesão
moral, atraídos pela força gravitacional de exterioridades
corrosivas. “Tudo que é sólido se desmancha no ar”,
diria Marx. A família proletária diante de sua condição
de miséria extrema é mera ficção ideológica.
A matéria social do capital dissolve quaisquer relações
sociais comunitárias, inclusive a “comunidade natural”,
que é a família. A proletariedade extrema implode a coesão
familiar dos Valastros. Eles ultrapassam a linha da marginalidade social,
submergindo-se na lumpenproletariedade. Na falta de horizontes de integração
no mundo do trabalho local, alguns membros familiares se dispersam.
É o desmanche da família.
Primeiro, o policial Salvatore seduz a jovem Lucia com uma “echarpe”
de seda. Imersa na miséria, ela se fascina pelo ornamento de
luxo. Mais tarde irá aparecer com um colar de brilhantes. É
a prova de que se entregara, de vez, ao policial. Adquire a fama de
prostituta na pequena aldeia de Trezza. Na miséria extrema perde-se
a honra familiar. O que o filme “A terra treme” expõe
são os elementos da degradação proletária
em sua condição extrema. É a corrosão da
dignidade humana em seus elementos últimos.
Segundo, o jovem Cola, irmão de N’toni, circula pela aldeia
com jovens desempregados, à margem da vida social. Ele conhece
um homem estranho, vindo de fora, que oferece cigarros americanos e
conversa com jovens pescadores sem muitas perspectivas de vida. Há
um mês procurando emprego, o jovem Cola se desanima. À
beira de morrer de fome, decide sair de Trezza, partindo com o estranho
forasteiro que recruta jovens par atividades ilícitas no Continente.
Talvez, seja um enviado da máfia que recruta jovens desempregados.
Diz Cola: “Cansei de viver aqui”. O narrador diz: “O
mar é o mesmo em todo o mundo”. Mais tarde, Cola iria embora,
levando consigo uma esperança de vida familiar. Diz ele, “...ainda
voltaremos a ser uma família feliz”.
O avó Valastro adoece e é levado para Catania. O irmão
pequeno de N’toni e Cola, ainda criança, trabalha numa
região próxima, colhendo laranjas. Cai na degradação
do trabalho infantil. É o único que consegue ser explorado.
Os demais estão excluídos da produção do
capital, desocupados e sem perspectivas de inserção salarial.
O jovem N‘toni cai na vida miserável, tornando-se alcoólatra
que convive na noite com o “lumpen” de Acitrezza. Desce
ao inferno do lumpensinato. Mas N’toni continua enfrentando o
poder local. Não abdica de seu orgulho. O enfrentamento aparece
como discussão e briga com Lorenzo, capataz dos mercadores. É
o enfrentamento físico e pessoal com o poder dominante em Acitrezza.
É a briga de um deseperado e de um provocador.
Mas a expressão-mor da degradação familiar dos
Valastros é a perda do lar, isto é, a casa dos Valastros
penhorada pelo banco. O Banco Fidonia emite uma ordem de despejo, executando
a hipoteca para alienar a casa. Os banqueiros de Catania, o espectro
do capital financeiro que perseguia o empreendimento dos Valastros,
aparecem, finalmente, para fechar o círculo da degradação
moral-fisica dos Valastro. A cena dos senhores vindo executar a hipoteca
é uma das mais marcantes do filme. A expropriação
do território do lar é a despossessão absoluta.
O despejo, a retirada dos quadros da parede, enquanto o sino toca, possui
significados candentes de uma situação-limite como a morte.
O narrador se impõe expressando a desgraça dos Valastro.
Na situação de desgraça total, o amor é
impossível. Mara se despede de Nicola, seu amor impossível,
seja na riqueza, seja na pobreza.
Enquanto isso, algumas cenas finais são interessantes. A prosperidade
dos capitalistas de Trezza é evidente. Por exemplo, é
curiosa a cena de lançamento de novos barcos que recebem o nome
de uma baronesa local. Ela é que batiza os barcos. É a
expressão magistral da aliança entre o moderno e o arcaico
no capitalismo italiano. Diz o capitalista que os barcos darão
trabalho a dez tripulações. Constatamos que ampliou a
capacidade de acumulação dos capitalistas comerciais de
Trezza. Por outro lado, em seu discurso, o burguês faz a critica
de quem busca trabalhar por conta própria.
Outra cena interessante é a cena quem N’toni vai rever
seu velho barco e fala de sua sina. É dentro de si que N’toni
deve achar coragem para recomeçar. Enfim, o fênix renasce.
N’toni decide recomeçar. Como no romance dos Malavoglia,
N’toni decide ficar e lutar. Ele se recusa a partir para outras
terras.

A cena final é N’toni com os dois irmãos pequenos
(Vanni e Alfio) aparecendo no local de venda e transporte de peixe,
a Cooperativa Ciclope, buscando trabalhar nas novas tripulações
dos barcos. Enfrenta a gozação dos mercadores do mar.
“Vê que suas idéias não funcionam?”.
Na parede, frases de Mussolini, demonstram que o poder local é
fascista. Carmelo, um dos mercadores, ri dos miseráveis que tem
que suportar a gozação deles. Novamente a frase: “o
mar é amargo...”. A tomada final é Mara pendurando
os quadros na parede do novo lar e o jovem N’toni voltando a trabalhar
no mar, explorado pelos capitalistas.
Giovanni Alves
(2006)
(ATENÇÃO:
Esta análise de filme é parte do Projeto
de Extensão Tela Crítica 2004)
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