Vinhas da Ira,
(The Grapes of Wrath)
de John Ford
(1940)

 

Eixo Temático

Em seu processo de desenvolvimento sócio-metabólico, o capitalismo constitui a alienação do trabalho vivo e da força de trabalho dos meios de produção da vida material. É o que podemos denominar de proletarização do trabalho e constituição da condição de proletariedade. É no interior desta condição de proletariedade que se pode constituir (ou não) a classe do proletariado e a consciência de classe contigente e necessária. Todo trabalhado assalariado pressupõe uma precariedade que decorre desta alienação estrutural que funda a condição de proletariedade. No processo histórico de luta de classe, o trabalho vivo pode conquistar melhores salários e condições de trabalho, além de direitos sociais que colocam obstáculos à sanha de valorização do capital. Mas sob determinadas circunstâncias históricas, a ofensiva do capital pode debilitar e degradar salários, condições de trabalho e direitos da classe trabalhadora obtidos no decorrer da luta de classes. É o que podemos denominar de processo de precarização do trabalho que tende a constituir uma nova institucionalidade para a exploração da força de trabalho (o que podemos denominar de nova precariedade do trabalho).

Temas-chaves: trabalho, capitalismo, proletarização, estranhamento, precariedade e precarização do trabalho.

Filmes relacionados: “Vinhas da Ira”, de John Ford; “Ladrões de Bicicleta”, de Vittorio De Sica; “Segunda-Feira Ao Sol", de Fernando León de Aranoa.

Análise do Filme

O filme de John Ford, “Vinhas da Ira” (1940), baseado no romance homônimo de John Steinback, é uma crônica da proletarização do trabalho. Steinback retrata com vigor um fato histórico: a“Dust bowl” e o drama dos “okies”, arrendatários expulsos de suas terras em 1935 no Estado de Oklahoma nos EUA. Ao longo da década de 1930, a depressão assolava a América e a tragédia dos “okies” expunha as contradições sociais do capitalismo nos EUA. Em meados da década de 1930, um fenômeno natural atingiu a região dos pequenos agricultores, tornando a terra improdutiva. As intempéries da natureza inviabilizaram, na ótica do capital, o sistema de arrendamento. Depauperadas, as terras foram tomadas pelo banco que expulsaram as famílias, destruindo o sistema de comunidades agrícolas que vigorava na região. Milhares de famílias pobres tiveram que emigrar, tornando-se proletários agrícolas.

David Harvey faz a seguinte observação no livro “O Novo Imperialismo” sobre os eventos descritos dramaticamente em “Vinhas da Ira” de John Steinback: “A expulsão de populações rurais ocorridas durante a Dust Bowl [corrida da poeira] dos anos 1930 e a migração em massa dos “okies” para a Califórnia foram um violento precursor do longo processo de substituição nos Estados Unidos da agropecuária familiar pelo agronegócio. A principal força motriz dessa transição sempre foi o sistema de crédito, porém o aspecto mais relevante disso seja o fato de uma variedade de instituições do Estado, ostensivamente destinadas a proteger a agropecuária familiar, terem desempenhado um papel subversivo ao facilitar a transição que deveriam conter.”

Após estar recluso por quatro anos, cumprindo pena por homicídio, Thomas Joad retorna para casa no interior de Oklahoma. Encontra a família Joad e as demais famílias de arrendatários da região, expulsos da terra, sendo obrigados a emigrar para a Califórnia em busca de trabalho. O filme trata da viagem pela Route 66 e do drama dos Joad nos acampamentos de sem-terra da Califórnia. Primeiro, num acampamento de proletários agrícolas arregimentados por intermediários privados; depois, num acampamento do Ministério da Agricultura, que serve de dormitório para famílias de proletários em busca de trabalho nas fazendas da região.

No decorrer da odisséia proletária dos Joad, a aprendizagem do jovem Tom Joad, que descobre, aos poucos, a sina dos despossuidos da terra, sempre no limiar da necessidade, num mundo de fome e de precariedade estrutural. Mas não e só Tom Joad que aprende. Ao lado dele, o ex-pastor Casey, pregador imerso em dúvidas existenciais, ex-intelectual orgânico daquela comunidade de camponeses expulsos de suas terras. Casey começa a compreender a natureza da sociedade burguesa, baseada na exploração da força de trabalho, que exige dos proletários explorados, um mínimo de consciência de classe capaz de conduzi-los a resistir à degradação moral e física diante do capital voraz. Aos poucos, Casey descobre a verdade do mundo e ensina Tom Joad, através do exemplo, a encontrar o único caminho possível para a classe proletária explorada. Assim, se “Vinhas da Ira” é uma crônica da proletarização, é também um drama complexo e candente do processo de formação primordial da consciência de classe de proletários agrícolas, ex-arrendatários que aos poucos se desiludem a aprendem a verdade de ser da condição estranhada do trabalho assalariado.

Ao dizermos que “Vinhas da Ira” é uma crônica da proletarização, destacamos um processo de despossessão do trabalho vivo, despossesão/expropriação de seus meios de produção e de sua força de trabalho, processo de alienação que marca o desenvolvimento histórico do modo de produção capitalista. Desde que se constituiu como sistema produtor de mercadorias, baseado na propriedade privada, divisão hierárquica do trabalho, troca mercantil e concorrência, cujo desenvolvimento intrínseco se caracteriza pela concentração e centralização de capital, o capitalismo significa o processo de expropriação, exploração e acumulação de capital. Eis a tríade sócio-histórica que tem caracterizado a dinâmica sistêmica do capital. O impacto da tríade perversa do capital sobre a estrutura de classes constitui os processo de proletarização e o processo de precarização do trabalho que buscamos salientar.

A proletarização é o processo de expropriação de produtores autônomos (camponeses ou artesãos), transformando-os em proletários ou trabalhadores assalariados, contingente de homens e mulheres disponíveis para serem explorados pelo capital na indústria ou nos serviços. O que ocorre, deste modo, no filme “Vinhas da Ira” é a passagem de uma situação de classe para outra, quando um contingente de famílias de pequenos agricultores é expulsa de suas terras, meio de produção da sua vida material, sendo obrigadas a venderem sua força de trabalho nas fazendas capitalistas da Califórnia. Todos eles tornam-se proletários, pois foram expropriados pelo grande capital (no caso, os bancos).

É interessante que nesse caso, o agente que expropria é o capital financeiro, que centraliza em suas mãos as terras dos agricultores expropriados. Na verdade, os bancos abolem o sistema de arrendamento e adotam um sistema de exploração baseado em capital intensivo, com as máquinas sob o controle de assalariados agrícolas mais qualificados, assumindo a produção agrícola. O que o filme “Vinhas da Ira” expõe é um processo social (e técnico) que ocorreu e ocorre em vários lugares do mundo capitalista onde o grande capital invade o campo, moldando-o à sua imagem e semelhança. Nos EUA, no decorrer do século XX, a presença do grande capital na agricultura significou, em alguma medida, a expulsão dos camponeses, pioneiros desbravadores do Oeste que no século XIX, por sua vez, tinham ocupado as terras dos índios, população expropriada (e assassinada) nos primórdios da colonização da América. É interessante que, numa das cenas do filme, o velho caminhão da família Joad que cruza o Arizona, pela Route 66, atravessa uma reserva indígena. Naquela cena, cruzam-se os expropriados da América, índios e pequenos agricultores que emigram para a Costa Oeste.

É claro que o tema central do filme “Vinhas da Ira” é o processo de proletarização, não apenas de pequenos agricultores de Oklahoma, mas de comerciantes cujo negócio prosperava à sombra das comunidades agrícolas da região. Em torno da pequena propriedade girava um ecossistema social. Num das cenas do filme, um proletário ex-comerciante lamenta ter perdido a sua loja porque não havia mais compradores para seus produtos. É a sombra da proletarização que perpassa o filme. Mas a tragédia dos “Okies” acontece numa América capitalista, que assiste impassível e com preconceitos ao drama dos sem-terra.

Há um preconceito de classe que segrega os sem-terra. Talvez eles representem aquilo que a sociedade de classe quer ocultar: sua precariedade estrutural, exposta de modo cruel. Os “okies” são segregados em acampamentos na periferia das cidades, condenados a viverem no limbo. A população das cidades da Califórnia temem que eles possam tirar emprego da região, até porque a América vive sua grande depressão. Numa das cenas do filme, os Joad são impedidos de entrar na cidade ao fugirem de um acampamento. Encurralados, têm que ir noutra direção, indo de encontro, por acaso, ao acampamento do Ministério da Agricultura. É neste local que encontram dignidade social, apesar da condição proletária (é a mensagem ideológica do filme de John Ford, simpático ao New Deal. Inclusive o superintendente do acampamento do governo tem as feições do Presidente Frank. D. Roosevelt que na época de lançamento do filme nos EUA, em 1940, tentava pela terceira vez, a reeleição para Presidência da República).

É sob o amparo do governo democrata que os Joad encontram refúgio contra a voracidade dos mercadores do trabalho precário e a insanidade da população preconceituosa da região. Aquele acampamento parece um pequeno oásis no mar do “moinho satânico” do mercado. O governo não abole a exploração do trabalho assalariado, mas apenas procura torná-la menos desumana. Aliás, os Joad encontram no acampamento governamental um lugar para recompor suas forças vitais e a dignidade moral, aguardando serem contratado como proletários catadores de frutas nas fazendas capitalistas da região, por intermediários legalizados.

Como iremos verificar adiante, John Ford busca contrastar as duas lógicas possíveis que constituem o mundo do capital: por um lado, a barbárie social do mercado de trabalho precário, sem regras e desprovido de respeito à dignidade humana e aos direitos trabalhistas. É o que a família Joad encontra no primeiro acampamento e na grande fazenda onde iriam trabalhar como colhedores de laranjas. Por outro lado, a seguridade social e a organização moral do acampamento do Ministério da Agricultura, onde existem regras de cidadania. Ao vislumbrar o novo mundo, Tom Joad se interroga porque não existem mais acampamentos como aquele. Mas o superintendente não sabe responder e pede que ele procure a resposta. Na verdade, sem o saber, o superintendente coloca mais um desafio para o jovem Joad, que no decorrer do filme, busca um sentido para a tragédia dos pais.

Podemos dizer que o filme “Vinhas da Ira” não trata do processo de precarização do trabalho. Por precarização do trabalho entendemos o processo de perda de direitos e de garantias salariais de um contingente de trabalhadores assalariados no decorrer de uma determinada temporalidade histórica. O que observamos no filme é a constituição de um estatuto salarial precário, a precariedade salarial de trabalhadores proletários da agricultura. Não os consideramos trabalhadores precarizados tendo em vista que não perderam direitos no interior do estatuto salarial, mas sim, perderam seus meios de produção da vida material, isto é, foram expropriados das condições objetivas e subjetivas de produção de suas vidas sociais. Passaram de uma classe social para outra, isto é, da classe de pequenos camponeses arrendatários com alma pequeno-burguesa, passaram para a classe dos trabalhadores assalariados, proletários pobres da agricultura da Costa Oeste. Ocorreu não a precarização do trabalho, mas sim proletarização do trabalho.

O filme “Vinhas da Ira” começa num encruzilhada. É um começo metafórico para o jovem Tom Joad que volta para casa e pede carona a um caminhoeiro. É numa encruzilhada que o jovem Joad devera se encontra no decorrer do filme, tendo que buscar a verdade de si próprio como recém-proletário. Thomas Joad carrega em si valores comunitários, de um mudo social baseado no face-to-face e em valores de solidariedade e de generosidade. O mundo dos pequenos agricultores, que preservam ainda uma sociabilidade tradicional, se contrasta com o mundo da grande empresa, da corporação, eivada de desconfiança e de indiferença pelos outros. Aliás, o filme transmite, a cada momento, o contraste entre os dois mundos da modernidade do capital. O primeiro, marcado por uma modernidade inconclusa e em transição, que preserva valores do antigo regime e onde o capital ainda não avassalou as relações sociais; e o segundo, por uma modernidade avassaladora que desnuda o homem de valores tradicionais. De certo modo, a idéia do governo do New Deal busca dar o devido equilíbrio entre a força corrosiva do mercado e do capital avassalador e a importância dos valores comunitários da coesão social para o próprio projeto de Nação.

Thomas Joad está na encruzilhada, pedindo carona, quebrando regras do sistema, apelando para os valores comunitários dos homens bons contra as forças indiferentes da grande empresa moderna. O caminhoneiro lhe dá carona, mas demonstra desconfiança, afinal vive-se no mundo do capital e da grande corporação. Nos primeiro minutos do filme, sabemos da condição de classe de Tom Joad. Ele é filho de pequenos sitiantes, que possuem 40 acres de terra. John Ford, nas primeiras cenas, quer expor a tragédia que assola os sitiantes do Oklahoma. O que iremos ver é uma cenário de destruição de um ecossistema social baseado na pequena propriedade. Na verdade, os Joad não eram proprietários rurais, mas sim arrendatários de terra, o que significa que tinham a posse dos meios de produção, mas não a sua propriedade. Enfim, estavam imersos num certo grau de precariedade social.

A crise e destruição da comunidade local e de sua superestrutura ideológica se exprime, num primeiro momento, através da crise espiritual do pregador Casey. O ex-pregador deixou de ser pastor porque perdeu o chamamento e o fervor, diz ele. Casey era o “intelectual orgânico” daquela núcleo comunitário. Perdera o seu lugar social porque não havia mais comunidade. O personagem Casey é um homem espiritual, que busca a verdade do ser e, como o jovem Joad, está em busca de algo. Ele põe em dúvida suas crenças e não acredita mais nas certezas do mundo. É um homem deslocado no mundo da reestruturação produtiva (ora, o que ocorre é uma reestruturação produtiva que abole aquele sistema de arrendamento e instaura outra forma de exploração).

Casey acompanha o jovem Tom até a casa dos Joad que está abandonada. Nela, Tom encontra coisas deixadas pela família que suscitam reminiscências e são quase pedaços de si. No local, Casey e Tom encontram outro “homem deslocado”, um espectro humano vagando pela escuridão da casa e do local. É através de Muley Graves que sabemos o que ocorreu na pequena comunidade agrícola. Ele narra a tragédia: “Em parte é culpa do vendaval; começou com ele”. Ora, Muley tem razão. Em parte, o que ocorreu, decorre de um fenômeno natural. Mas o que ele nos relata a seguir é uma tragédia humana que possui claras determinações sociais que aparecem quase como fetiches naturais. Ao mesmo tempo que narra, Muley se depara com uma questão moral: o problema da culpa. Afinal, de quem é culpa pela desgraça dos pequenos arrendatários? Eles foram expulsos do Paraíso, mas não conseguem vislumbrar o verdadeiro culpado. Mas, existe um culpado? A culpa é uma categoria que pertence ao mundo dos homens. O mundo do capital é impessoal e o que aconteceu é resultado da natureza do sistema abstrato do capital. Se não há culpa nem culpados, tendo em vista que o que ocorreu decorre da natureza impessoal do mundo do capital, o que podemos fazer enquanto indivíduos indignados? A quem devemos recorrer para expressar a revolta do trabalho?

No filme “Vinhas da Ira”, Muley é a pura expressão da incapacidade (e impotência) pessoal de enfrentar o mundo do capital. O filme demonstra que não há saídas individuais. Talvez, apenas respostas coletivas. Mas o camponês Muley não pode vislumbrar saídas coletivas. Como ele nos diz, “eu sou apenas o fantasma de um cemitério abandonado”. A verdade da condição proletária só iria ser apreendida, mais adiante por Casey e Tom Joad. A dimensão do estranhamento é expressa nesta frase de Muley: “Quem diria que um dia eu me esconderia em minha própria casa”. Eis a dimensão do estranhamento em sua forma aguda: ser estrangeiro em seu próprio lar (em “Segunda-feira ao sol”, Amador expressaria isto quando sugere que para entrar no lar teria que pagar ingresso).

Após a primeira parte, que expõe elementos essenciais da tragédia dos Joad, a cena seguinte é uma cena familiar. Sentados todos à mesa, os Joad, imaginam ter encontrado na Califórnia, uma terra prometida. A composição da cena é magistral. Por um lado, o panfleto mostrado pelo pai Joad nos diz: “Muito trabalho na Califórnia. Precisa-se de 800 colhedores...”. De outro lado, a família Joad, sentada à mesa, sendo servida pela mãe Joad. Estão todos lá, imersos em ilusões sobre o mundo do capital que os espera na Costa Oeste. “Vi os folhetos sobre quanto trabalho tem e os salários altos também”, exclama mais tarde mãe Joad.

 

Naquele momento, eles são ainda uma família. Aos poucos, iremos verificar que, aquilo que o panfleto representa irá desconstituir a família, desagregando-a. De repente, o bisavô Joad exclama: “Espere até eu chegar lá. Vou comer laranja quando quiser”. Ora, o velho Joad não consegue vislumbrar o valor de troca. Para ele, as laranjas não são mercadorias, mas sim, produtos que satisfazem necessidades humanas. Ele ainda está imerso em valores tradicionais de um mundo social onde a natureza era para ser objeto de fruição e não objeto de valorização do capital. Mais adiante, o velho Joad se recusaria a partir de sua terra. Diz ele: “Não vou para a California. Esta é a minha terra e eu pertenço a ela.” Ou ainda: “A terra é minha. Não é boa, mas é minha, é toda minha”.

A força dos laços da tradição e do trabalho na terra é maior do que qualquer anseio de ir para a Califórnia colher laranjas. Nos pequenos produtores agrícolas existe uma identidade entre vida e trabalho. É o que expressa o velho Joad, patriarca da família que se recusa a abandonar o lar. Ele se recusa a aceitar a expropriação do capital. Tirar-lhe a terra é tirar-lhe a vida. Como Muley Graves, o velho Joad é incapaz de ir além de seu horizonte de camponês. A idade é seu limite. É curioso que, enquanto o velho Joad se recusa a ir, as crianças Joad gritam: “Vamos para a Califórnia!”. Mais uma vez, eis o problema geracional e como as mudanças estruturais atingem, de forma diferenciada, a percepção dos agentes sociais de classe.

O velho Joad é o bisavo do jovem Tom Joad. Se Muley Graves enlouqueceu, e na verdade, a sua solidão é uma forma de loucura, pois não consegue se adaptar ao novo mundo da proletariedade, o velho Joad, com sua pertinaz teimosia, se recusa a partir. É mais difícil romper com laços de vida constituídos pelo trabalho autônomo e incorporar valores sociais impregnados de despossessão da terra. Não ter um lugar é o inferno para o velho Joad. Entretanto, ele é obrigado a deixar o sítio, vindo a falecer mais tarde, logo no começo da odisséia dos Joad pela Route 66. É o começo da desagregação da família Joad.

O reencontro da mãe Joad com o filho Tom é uma cena de emoção. A expressão de Jane Darwell, a mãe Joad, é magistral. Sem dizer uma palavra, ela transmite a emoção da mãe que reencontra o filho querido. É uma expressão de amor, cuidado e preocupação. A mãe Joad possui uma sabedoria sobre o mundo do capital, um mundo grande e cruel que brutaliza homens e mulheres. Ela teme que o jovem Tom tenha se brutalizado. Pergunta ela: “Eles o machucaram filho? Eles o machucaram e o enlouqueceram? As vezes eles fazem coisas com você. Eles o machucam até você se tornar um homem mau. E o machucam de novo e você se torna pior ainda. Até que não é mais menino nem homem, apenas malvadeza encarnada.”

Enfim, a mãe Joad sabe que o mundo do capital é um mundo de socialização perversa, o mundo da barbárie social. É a própria contradição em termos, tendo em vista que socializa e dessocializa homens e mulheres, fabricando-os como “malvadeza encarnada”, o próprio mal em corpo e alma. O sistema do capital dilacera almas, isto é subjetividades, mentes e corpos, e os prepara para a exclusão social. É o que a mãe Joad sugere com sua fala magistral. É a preocupação da mãe que coloca um filho no mundo e o perde para as contingências da vida social estranhada. É a alienação irremediável que irá tocar a mãe Joad. No final, ao se despedir do filho, ela expõe o que mais teme: “Eles podem matá-lo e eu não saberei. Eles podem machucá-lo. Como vou saber?”

A relação da mãe com o filho é uma relação afetiva intensa, de laços concretos, como a do homem agricultor com a terra que cultiva. Por isso ela não compreende quando Tom Joad diz para ela, no final do filme, que irá partir, mas que estará presente através das lutas de classe e das idéias de uma sociedade justa e digna. Diz Tom: “Onde houver uma luta para que os famintos possam comer, eu estarei lá. Onde houver um policial surrando um sujeito, eu estarei lá. Estarei onde os homens gritam quando estão enlouquecidos. Estarei onde as crianças riem quando estão com fome e sabem que o jantar está pronto. E quando as pessoas estiverem comendo o que plantaram e vivendo nas casas que construíram. Eu também estarei lá”.

Ora, o jovem Tom Joad expressa a percepção de classe proletária, onde o vínculo abstrato de classe social é candente em virtude da própria despossessão de homens e mulheres. Isto é, para aqueles envolvidos no trabalho abstrato, o sentido da presença possui uma dimensão abstrata: eles estão aonde está a “classe em luta” e nos momentos de realização dos “ideais da classe social”. Tal lógica social universal-concreta é incompreensível para a mãe Joad e até para o próprio Tom Joad, que está ainda aprendendo, e que acalenta valores de uma afeição concreta e de um carinho pessoal pelo filho jogado no mundo da proletariedade. Ela diz: “Eu não compreendo”. E Tom retruca: “Nem eu. Mas é algo em que venho pensando.”

Ora, no filme, a mãe Joad vive uma existência de perdas: perde a terra, a família e o filho querido. São perdas concretas insubstituíveis. Mas ela é forte e sua fortaleza possui um valor moral significativo para a família Joad. No final do filme, ela diz: “...a mulher se adapta melhor que o homem. Um homem vive meio que, bem, aos solavancos. Bebês nascem e alguém morre, isso é um solavanco. Ele compra um sitio ou o perde, isto é um solavanco. Com a mulher, é constante como um riacho. Pequenos redemoinhos e cascatas, mas o rio continua.” Deste modo, mãe Joad possui uma percepção de gênero que transcende a dimensão de classe. É uma percepção concreta que incute uma sabedoria popular, de que a força está com a mulher.

A mãe Joad é uma personagem forte, mulher que expressa a força moral da família Joad, centro de gravidade dos personagens familiares. Como auto-consciência do ideal de família, mãe Joad lamenta que “a família está se desfazendo”. Ela, ao lado do pai Joad, vivem e percebem a proletarização em seu sentido de aguda desefetivação da condição de individualidade pessoal. Enquanto os avós falecem no decorrer da narrativa, não suportando a passagem para a nova condição proletária, pai e mãe Joad seguem adiante, com os filhos e os netos rumo ao desconhecido.

Um detalhe: ao enterrarem o avô William James Joad, ainda nas terras de Oklahoma, Tom Joad escreve, com certa ironia, no bilhete: “...ninguém o matou...”. A rigor, o velho Joad teve abreviado seu tempo de vida pela despossessão abrupta de suas terras em Salislaw. Ele própria dissera: “Esta é minha terra e eu pertenço a ela”. Apesar de existirem determinações sócio-históricas do mundo do capital que contribuíram para o falecimento do velho Joad, não podemos atribuir a culpa a ninguém. Na verdade estamos diante de um processo social cego, o movimento do capital, que avança de forma irremediável, como os tratores Caterpiller nas terras dos sitiantes. Por isso, a ironia da frase do bilhete contém uma verdade: não há culpados. O que significa que, como o relato trágico de Muley Graves salientou, a critica moral do capitalismo não se sustenta.
No ato do enterro do velho Joad, o ex-pregador Casy é convocado a fazer um breve sermão. Após vacilar – afinal ele não é mais pregador – aceita e profere uma frase lapidar. Diz ele: “Este é um homem velho, que viveu uma vida e morreu dela. Não sei se ele era bom ou mau. Não importa muito.” E observa: “Uma vez escutei um poema. Ele dizia: ‘Tudo que vive é sagrado’. Eu não rezaria apenas por um velho morto, porque ele está bem. Se tivesse de rezar eu rezaria pelos vivos, que não sabem para onde ir.”

Este breve sermão de Casy é eivado de significados. Primeiro, ao dizer que “tudo que vive é sagrado”, Casy condena, sem o saber, o processo de modernização do capital, que, em sua expansividade, dessacraliza tudo, principalmente (e em primeiro lugar) aquilo que vive. É com o surgimento da nova escravidão, o trabalho assalariado, que surge o modo de produção capitalista. O trabalho assalariado ou a condição proletária é o primeiro ato dessacralizador do capital. Primeiro, o mundo social do capital dessacraliza o trabalho vivo, avassalando-o e depois, intervertendo-o em trabalho morto, com a introdução das máquinas. A dessacralização prossegue atingindo a vida social e depois a própria natureza e o ecossistema. Enfim, o que Marx e Engels expuseram no “Manifesto Comunista”, na seção I, “Burgueses e Proletários”, expressa o cerne essencial deste sistema de metabolismo social.

Segundo, ao priorizar os homens vivos, isto é, o trabalho vivo, Casy faz uma opção materialista. Coloca em primeiro lugar a matéria social. A sua preocupação se desloca para os condenados da terra, deixando de lado as interrogações sobre a vida além da morte. Sua afirmação é precisa: “Se tivesse de rezar eu rezaria pelos vivos, que não sabem para onde ir.” Na verdade, o personagem Casy embora não o saiba já está impregnado do princípio materialista e da critica, mesmo que ingênua, à proletariedade e ao sistema do capital.

Como dissemos, enquanto os avós Joad falecem, mãe e pai Joad seguem a odisséia da nova proletariedade. Num certo momento, ao abandonar a fazenda, rumo a Califórnia, mãe Joad se recusa a olhar para trás. Ela possui uma firmeza de caráter que a obriga a enfrentar com coragem o “destino” da modernidade do capital (embora, é claro, num certo momento, Tom Joad ter observado, com sabedoria: “não é preciso coragem se você não tem escolha”). Seu filho observa: “Nem parece você, mãe. Nunca foi assim”. E ele retruca: “Nunca tive minha família no olho da rua. Nunca tive que perder tudo que já tive na vida.” Com certeza, para mãe Joad, a experiência vivida e percebida da proletarização é mais aguda. Ela é mais intensa, em duração e intensidade, enquanto experiência de vida nas gerações mais velhas de recém-proletários.

Ora, a família Joad enfrenta uma situação-limite. A proletarização é uma situação crucial na trajetória de vida de homens e mulheres que ainda possuem o controle de seus meios de produção material. A proletarização ocorre no decorrer de um tempo-espaço determinado. No filme “Vinhas da Ira”, ela é um ato histórico de perda e de despossessão das famílias de agricultores arrendatários. Ocorre num dado momento histórico. Após serem expulsos da terra, eles, em termos objetivos, não são mais camponeses, embora, o sejam em termos subjetivos. Na verdade, nem sempre há plena sincronia nos dois momentos do ser social de classe. Por isso, podemos dizer que, embora eles sejam recém-proletários, vivem a nova condição de classe imbuídos, uns mais e outros menos, de uma consciência pequeno-burguesa.

O que significa que, mesmo após serem expulsos da sua fazenda no Oklahoma, o processo de proletarização que atinge a família Joad ainda não fechou o circulo de desefetivação pessoal, tendo em vista que ainda persiste, em alguns membros da família, valores, expectativas e utopias ligado ao horizonte camponês.

Ao seguirem para a Califórnia, a família Joad atravessa os EUA. Seguem pela Route 66, percorrendo o caminho dos conquistadores do Oeste. É pura ironia os Joad “fugirem” das agruras do sistema social do capital através dos caminhos para o oeste americano, horizonte desbravado pelos pais fundadores da nação do capital, os EUA. Enfim, perseguem o velho sonho americano (o “American dream”) no país dos trustes e cartéis. Ao migrarem para o Oeste carregam em si o sonho da autonomia pessoal, desconhecendo sua nova condição de classe subalterna.

A passagem para a condição de proletariedade, devido o processo de proletarização na qual está imerso a família Joad, significa que o rol de personagens do filme “Vinhas da Ira” está absorvido por um complexo de dor, sofrimento e ambigüidade. Aliás, a ambigüidade/ambivalência é a condição da modernização do capital, que desenraiza e desacomoda homens e mulheres de sua condições de vida tradicionais, ligada à terra e aos pequenos negócios. Como salientamos, o processo de proletarização é desigual e combinado, seja no sentido objetivo ou subjetivo. Isto é, embora o desapossamento seja imediato (a expulsão de suas terras, por exemplo), a perda de autonomia pessoal é lenta e gradual e a constituição de uma consciência de classe é gradativa (como verificamos nos personagens de Casy, Tom e Mom Joad).

Os personagens adultos do filme “Vinhas da Ira” possuem um lastro de experiências passadas na condição de “classe” pequeno-burguesa e com certo horizonte de valores campesinos e de autonomia comunitária. Aos poucos, desmancha-se a base material dos valores pessoais, jogando os personagens na deriva do estranhamento derivado do processo de proletarização. É um tipo de estranhamento particular-concreto – o estranhamento da proletarização.

A deriva de Casy, o pregador da pequena comunidade rural dos agricultores arrendatários, é a deriva de seus valores espirituais. Ele perdeu sua referencia material, por isso não possui mais a certeza. A condição da dúvida é a abertura para um novo horizonte de classe. “Duvido, logo existo”, diria Casy. Tanto ele, quanto Tom (e mais tarde, a Mom Joad) passam a incorporar novas experiências de vida proletária que traduzem a visão de classe dos trabalhadores assalariados. Eles incorporam a consciência de classe contingente mais avançada que se traduz em novos referentes, como a idéia de “alma grande”, expressa pelo jovem Tom Joad, metáfora da idéia de classe proletária, ou ainda a idéia de “povo”, dita por Mom Joad na cena final do filme.
Existem dois momentos cruciais de inflexão da narrativa do filme “Vinhas da Ira”. Primeiro, quando são expulsos das terras em Oklahoma e se deslocam pela Route 66, cruzando vários Estados norte-americanos. Depois, a segunda inflexão ocorre na chegada deles no primeiro acampamento de sem-terra na Califórnia. É o momento da desilusão com a “terra prometida”.

Mas, antes de chegarem à Califórnia, a família Joad (e Casy) encontram num acampamento de beira de estrada da Route 66, um contingente de proletários agrícolas, ex-arrendatários expulsos de suas terras e inclusive, ex-comerciantes das comunidades agrícolas, que parecem fazer o caminho inverso dos Joad. Eles relatam a exploração nas fazendas da Califórnia. A fala do ex-comerciante é interessante tendo em vista que revela para nós que o processo de proletarização atingiu não apenas agricultores, mas também uma pequeno-burguesia do comércio local. Depois, ela nos expõe que, há, no contingente pequeno-burguês do comércio expropriado, um sentimento de perda com sua atividade autônoma que lha dava realização pessoal. Finalmente, podemos verificar que o movimento do capital significa a implosão de todo um ecossistema social de atividades autônoma de trabalho. O pequeno comércio girava em torno das atividades dos pequenos agricultores. Diz ele: “Tínhamos um armarinho. Quando os sitiantes se foram, a loja também se foi. Era uma loja tão-bem ajambrada. Odiei abandoná-la.”

No primeiro acampamento de beira de estrada da Route 66, território de sociabilidade possível de homens e mulheres dessocializados, expõe-se a crua verdade do panfleto que prometia emprego e bons salários na Califórnia. É claro que o velho Joad, pai de Tom, ainda cultiva sua ilusões: “Imagino que, quando acharmos trabalho e quem sabe um pedaço de terra perto da água, talvez não seja tão ruim. Todos poderemos trabalhar.” Ora, mas o que se expõe, nesta cena que se passa à noite, é todos estão imersos no sistema da farsa, que é o sistema do capital, que manipula o trabalho vivo com promessas de realização pessoal. Afinal, o panfleto e os jornais diziam que pagavam bem na Califórnia. O que se verifica é que o capital manipula à exaustão a grande quantidade de força de trabalho disponível dos ex-agricultores, dispostos a serem explorados, em luta pela existência.

A grande oferta de força de trabalho sempre é grande vantagem para o capital. É a lei da oferta e da procura que contribui para o processo de acumulação de riqueza abstrata. Pessoas desesperadas aos milhares se sujeitam a empregos de pior qualidade, com baixos salários, isto é, salários de fome. Deixados à deriva da concorrência no mercado de trabalho, os trabalhadores assalariados e reduzem à mera proletariedade.

A família Joad alimenta a ilusão de que através do trabalho possam retomar o modo de vida perdido, baseado no cultivo da terra. Inclusive, pelos cálculos do pai Joad, se eles pagam bons salários, podem ter uma ótima renda familiar, tendo em vista que, como ele diz, “somos vários e todos bons homens....nos juntaremos e todos ficaremos bem”.

De repente, a fala de um proletário expõe a alteridade trágica. É uma simples pergunta que expõe a ilusão dos Joad naquele momento. Diz ele: “Bom salário? Colhendo laranja e pêssegos?” E conclui com desalento, expondo a tragédia que os espera: “Estive lá e vi. Vou voltar e morrer de fome porque prefiro morrer de fome de uma vez só.”. O relato do ex-agricultor é um dos mais candentes tragédias do filme “Vinhas da Ira”. Expõe que a condição de proletariedade significa um processo de desefetivação pessoal que assume sua forma plena na morte de fome. E o pior: atinge mulheres e crianças, representantes da futuridade de classe. Disse ele: “Já havia pedido dois filhos e minha mulher quando entendi. E ninguém me disse nada.” Um detalhe: os médicos que fizeram a autopsia das crianças que morreram de fome atestaram que apenas que “morreram de insuficiência cardíaca”. Enfim, o atestado médico ocultou a natureza perversa do sistema de produção do capital. Inclusive, o que o filme sugere é que médicos do trabalho compõem, com o sistema policial e o sistema midiático (os jornais, por exemplo), os pilares do sistema de ilusionismo da exploração e da produção do capital.

Mas logo, seu relato desvelador da miséria do sistema do capital é confundido com o relato de um agitador social. Alguém diz para o ex-agricultor proletarizado que relata sua tragédia familiar: “É algum criador de caso? Tem certeza de que não é um daqueles pelegos?”. Esta observação demonstra a força da ideologia em construir preconceitos contra os agentes do desvelamento social que buscam expor a desumanidade da ordem burguesa. Ora, a mera explicitação da exploração e da desigualdade social atenta contra a imagem supostamente humana do desumano sistema capitalista de produção. Mesmo o simples relato pessoal destrói a pseudoconcreticidade deste sistema social.

Após o relato emocionado do proletário agrícola, quando todos se recolheram, o velho Joad pergunta ao filho Tom: “Acha que ele está dizendo a verdade?” E Tom responde: “Está sim. A verdade para ele. Não foi invenção”. O pai retruca: “A verdade para nós também?”. E Tom diz: “Não sei”. Enfim, os Joad não conseguiram ainda traduzir a verdade-dos-outros como verdade de si e verdade para–si. Como o filme “Vinhas da Ira” trata de uma fenomenologia da consciência de classe, podemos dizer que antes da verdade da consciencia de si e para si, existe a consciência da verdade dos outros e para os outros. É o que o jovem Tom Joad começa a apreender através dos relatos dos outros proletários do campo, ex-agricultores arrendatários.

A travessia da América através da Route 66 é um tipo de aprendizado para a família Joad. A estrada possui um sentido metafórico. O filme “Vinhas da Ira” parece ser o primeiro road movie da história do cinema norte-americano (mais tarde, em 1969, no filme “Easy Rider”. Dennis Hooper e Peter Fonda iriam percorrer o caminho inverso da família Joad). Outra cena interessante à beira da estrada é a cena da lanchonete onde o velho Joad via tentar comprar um pedaço de pão. Primeiro, a cena é um elemento de referencia que busca situar o valor monetário da cesta básica da família Joad e o grau de exploração capitalista que os aguarda na Califórnia. Por exemplo, através desta cena sabemos o preço das mercadorias básicas em contraste com o valor do salário pago – no primeiro acampamento paga-se 5 centavos por balde. O velho Joad possui apenas 10 centavos. A garçonete observa que com 10 centavos não se compra nem um pão.

A garçonete observa: “Só temos pães de quinze centavos”, diz ela. O velho Joad sugere que ela corte um pedaço de pão equivalente a dez centavos. Mas depois do “imbróglio”, o dono do var pede que ela dê-lhe um pão, pão dormido, que o velho Joad, cheio de orgulho, insiste em pagar. Outra detalhe é que no bar, aparece uma tabela de preços que expõe o valor monetário dos itens de alimentação.

Ainda na cena do bar, as crianças Joad querem comprar um doce, mas não possuem dinheiro suficiente. Finalmente, a garçonete oferece-lhe a um preço que permite que as crianças possam comprar o adorado doce. O interessante é que, logo a seguir, após os Joad terem saído do bar, dois trabalhadores camioneiros, deixam, com a garçonete, um troco a mais, a título de gorjeta. De certo modo, é um tipo de solidariedade das categorias de trabalhadores mais organizadas, como os camioneiros, que possuem renda salarial, com os trabalhadores pobres, inválidos e crianças de famílias pobres. Ao deixarem o troco de dinheiro com o bar, os trabalhadores da estrada, que na década de 1930 possuíam grande organização sindical, “financiaram” indiretamente as crianças da família Joad.

Talvez o que o filme “Vinhas da Ira” esteja destacando é o mecanismo da Previdência Social como elemento de solidariedade inter-geracional da classe trabalhadora. O fortalecimento do sistema de Previdência Social, com as gerações ativas, contribuindo para financiar as gerações carentes, inválidas e inativas é a grande proposta do Welfare State que se construiu no pós-guerra. A Previdência Social é uma das maiores instituições civilizatórias construídas pelo trabalho organizado e que, nos tempos neoliberais, está sob a ofensiva do capital. Sob o neoliberalismo, o que se quer é quebrar uma das formas de solidariedade entre as classes sociais, reduzindo a seguridade social e a previdência social ao jogo do mercado.

No decorrer da Route 66 percorrida pelo calhambeque da família Joad, assistimos a presença de trabalhadores indígenas, os primeiros expropriados da América, em sua reserva, exercendo atividades de pastoreio; além da presença do Estado através das inspeções estaduais, que controlam o fluxo dos imigrantes e ainda a presença de jovens atendentes de posto de gasolina que expressam o preconceito para com os “Okies”, os mais novos proletários da terra nos EUA de meados da década de 1930. Na cena do posto de gasolina os atendentes se espantam com a coragem dos Joad em atravessar o deserto com um calhambeque desses lotado de gente. Tom Joad observa: “Não é preciso coragem se você não tem escolha”. Eles dizem ainda: “Essa gente [os “okies”] não tem senso nem sentimento. Não são humanos. Nenhum ser humano viveria desse jeito. Um ser humano não agüentaria tanta miséria.”

Enfim, através da fala na narrativa do filme “Vinhas da Ira”, John Ford expõe o preconceito de trabalhadores formais (e da “classe média”) com recém-proletários agrícolas, trabalhadores sem-terra. Eles não são considerados seres humanos. Esta é uma prática de racismo e de xenofobia do pior tipo que surgiram no século XX contra os pobres da terra.

Além disso, é importante observar que, em meados da década de 1930, os EUA estavam ainda imersos na “grande depressão”. Eram imensas as dificuldades do mercado de trabalho com o índice de desemprego assumindo dimensões alarmantes. A concorrência entre os trabalhadores era intensa, o que explica o preconceito contra imigrantes que poderiam concorrer com os postos de trabalhos locais. Mais adiante, os Joad seriam impedidos de entrar numa cidade da California: “Estão indo na direção errada. Não queremos mais gente de Oklahoma. Mal tem trabalho para os que já estão aqui.” Inclusive, a familia Joad abandonam o acampamento porque alguns rapazes da cidade, insatisfeitos com a presença de “okies” decidiram queimar o acampamento à noite.

Na verdade, o capital se fortalece com a aguda concorrência entre os trabalhadores. Ela contribui para o aumento da taxa de exploração. Além, é claro, de disseminar relações sociais de xenofobia, preconceito, ressentimento moral e terrorismo. Está-se no limiar da barbárie social. Eis um dos traços essenciais da condição de proletariedade.

Pouco antes de entrarem no deserto, os Joad vislumbram a Califórnia, a terra prometida. A jovem Rosasham Joad, imbuída de ilusões sobre a nova terra, diz: “Talvez seja melhor do outro lado. Os cartões postais eram muito bonitos.” Mais adiante, ao atravessarem o deserta, Connie, o marido de Rosham expressão sua insatisfação com a vida proletária. Lamenta não ter obtido a qualificação de técnico de radio através da revista “Spicy Western Story”, cuja propaganda dizia que bastava mandar o cupom, sem pagar nada e se obtinha um curso de técnico de rádio. “Trabalho bom e limpo”, diz ele. Mais uma vez, os recém-proletários ex-arrendatários estão imersos em ilusões sobre as possibilidades de desenvolvimento pessoal no sistema do capital. “Eu tinha de ter feito antes de embarcar nesta viagem”, afirma ele, arrependendo-se de estar no comboio de proletários braçais em direção às plantações das fazendas da Califórnia. Mais tarde, ao chegarem no acampamento na Califórnia, Connie iria fugir e abandonar Roshsham. Diz ela: “Talvez Connie tenha ido buscar uns livros para estudar. Ele vai ser técnico de radio. Talvez ele queira nos fazer uma surpresa.”

Diante da vida proletária, Connie abandonou a mulher grávida, isto é, a família em constituição. A proletariedade tende a corroer os laços familiares. Ao engravidar Rosesham, Connie pertencia ao mundo da comunidade agrícola, com laços sociais baseados na família. Mas a proletarização e as intempéries da vida proletária o deixaram transtornado. Como disse Tom Joad: “Chega uma hora que um homem enlouquece” Enfim, a família perdera sentido. Mom Joad iria observar: “A família está se desfazendo”..Indignado contra a proletariedade, Tom Joad exclama: “Estão nos corrompendo, nos humilhando, aproveitando-se da nossa decência.”

Após atravessarem o deserto, os Joad vislumbram a “terra prometida”. Exclama: “Veja como é bonito e verde”. As crianças observam: “Vejam os montes de feno. Seria bem divertido brincar neles”. Na verdade, eles ainda não têm a noção da propriedade privada e seus impactos na forma de apropriação da natureza. O fato de vislumbrarem uma paisagem bonita e verde não quer dizer que possam se apropriar dela. E aqueles monte de fenos, como as laranjas e os pêssegos, não são, de fato, objetos de usufruto social, mas valores de troca e produtos-mercadorias. A propriedade privada distorce a sensibilidade e percepção social, como observara Marx nos “Manuscritos de Paris”. A bela paisagem vislumbrada pela família Joad é mera virtualidade estranhada, tão ilusória quanto um cartão-postal que oculta, por trás de si, o mundo de miséria que assola a Califórnia. Logo adiante, seria Tom Joad que iria observar, ao se deparar com um acampamento de miseráveis, isolado na periferia da cidade: “Não me parece muito prospero.”

Enfim, a chegada na Califórnia é um ponto de inflexão narrativo decisivo no filme “Vinhas da Ira”. Começa o processo de desilusão de classe. Eles entram em contato com o mundo de miséria ocultado pela suposta prosperidade capitalista. É o ponto fundante da perspectiva de classe cuja primeira constatação irá ocorrer quando alguns personagens, como é o caso de Casy e Tom Joad, percebem, mesmo que ainda de forma mistificada, que, quanto mais ricos ficam os donos das terras, mas pobres ficam os trabalhadores. A superexploração da força de trabalho que é visível através dos baixos salários pagos aos proletários agrícolas, em virtude da abundancia de oferta de força de trabalho, se manifesta também através das condições degradantes de vida e da própria fome que atinge aqueles incapazes de encontrar emprego. Enfim, não há trabalho para todos.

O universo do estranhamento social começa logo que eles chegam na primeira cidade da Califórnia. São abordados por um policial que diz ser do condado de Cherokke, próximo da cidade de origem dos Joad, Sallissaw, no Oklahoma. Embora haja, de inicio, um reconhecimento solidário, entre os Joad e o agente da lei, logo se manifesta um dos traços da modernidade burguesa: os papeis sociais se sobrepõem às relações pessoais. O policial diz: “Não tente ficar na cidade. Vá direto para o acampamento. Se pego-lo na cidade à noite, terei que prende-lo”.

Ora, embora como pessoa houvesse afinidades de ancestralidade de cunho tradicional com os Joad, o que prevaleceu foi o papel social de policial, cumprindo ordens de cima. É a mesma atitude do jovem tratorista do Caterpiller, filho de uma das famílias de agricultores amiga dos Graves. O jovem funcionário tratorista apenas cumpria ordens e não importava se tinha de cumpri-las contra os interesses de parentes.

Ao chegarem a Califórnia, a família Joad é obrigada a ir para um acampamento de proletários miseráveis nos limites da cidade, onde os intermediários arregimentam, a preço de fome, trabalhadores para a colheita de frutas na região. Um detalhe curioso: ao entrarem no acampamento, aparece na tela, por alguns segundos, um outdoor: Hotel Black. É um contraste irônico a propaganda de um hotel de luxo estar ao lado da favela ou acampamento de agricultores sem-terra, emigrados em busca de trabalho nas plantações da Califórnia.

As condições de saneamento e habitação são degradantes. Focaliza-se pessoas, homens, mulheres e crianças esfarrapadas e famintas, imersas numa indignidade de vida, quase como animais acuados. É o que mostra o olhar daquelas pessoas. Os calhambeques estão postos à venda, demonstrando que as pessoas vendem seus últimos utensílios, inclusive o mais essencial deles, o meio de transporte que as trouxe até aquele local, em busca de alguma capacidade aquisitiva para fugir da fome. É neste momento que a família Joad vislumbra a realidade do mundo do trabalho proletário na “terra prometida” da Califórnia.

Após a cena de miséria social, uma das cenas de maior impacto de “Vinhas da Ira”, logo adiante, temos a cena da arregimentação da força de trabalho barata para a colheita de frutas nas fazendas da Califórnia. Estamos diante de um quebra-cabeça cujas peças estão se juntando, compondo o quadro do modo de produção capitalista. O agente de arregimentação chega com seu carro imponente no acampamento, tendo ao lado, o sheriff local, demonstrando a promiscuidade entre maus capitalistas e poder público local. O capitalista, agente de arregimentação, logo exclama: “Vocês querem trabalhar?”. Ele apela para o “instinto básico” do trabalho vivo nas condições históricas do modo de produção capitalista: trabalho vivo é força de trabalho disponível para a exploração do capital. Diante de tanta oferta de força de trabalho, o capital oferece um salário de fome que lhe permite obter uma maior taxa de mais-valia. A exploração da força de trabalho tende a crescer na medida em que existe uma maior oferta da força de trabalho no mercado de trabalho. Deixado à mercê da lei do mercado, o trabalho vivo tende irremediavelmente a degredar-se.

É interessante o tipo de relação salarial na produção capitalistsa na agricultura exposta no filme “Vinhas da Ira”: o capitalista que arregimenta proletários agrícolas, ex-agricultores de Oklahoma, arrendou terras e utiliza força de trabalho barata para colher a safra de frutas. É claro que ele paga uma renda da terra ao proprietário agrícola. Nesse caso, quem explora os sem-terra, bóias-frias da Califórnia, não é o proprietário das terras, mas sim, o capitalista que as arrendou e que busca auferir um lucro em cima do qual irá ser abatido a renda da terra. O proprietário das terras é um mero rentista que usufrui a renda da terra.

Além disso, o modo de abordagem para a contratação da força de trabalho agricola é ilegal. O capitalista que arregimenta força de trabalho não diz quanto está pagando. Diz ele: “Não dá para dizer exatamente”. Na verdade, apesar de estar ao lado do sheriff, o capitalista burla a lei e os direitos trabalhistas. Além disso, para poder contratar força de trabalho, o capitalista arrendentário precisa de uma licença. É o que observa um dos proletários na multidão: “Apenas mostre sua licença para contratar. E daí faça um pedido. Onde, quando e quanto pagará. Assine que nós iremos.” É o que a lei exige. Mas o filme “Vinhas da Ira” expõe que o mercado de trabalho capitalista está cheio de transgressores da lei que a transgridem visando extrair maior quantum de mais-valia da força de trabalho. O filme de John Ford não condena a classe dos capitalistas, mas os maus capitalistas, aqueles que transgridem os direitos trabalhistas e buscam arregimentar, de forma ilegal, força de trabalho.

O proletário consciente de seus direitos trabalhistas expõe para a multidão de miseráveis no acampamento dos sem-terra, a lógica da perversa da contratação ilegal de força de trabalho. Diz ele: “Já caí nessa conversa duas vezes. Talvez ele precise de mil homens. Então ele consegue 5.000 e paga 15 centavos a hora. Vocês aceitarão porque estarão com fome.” O sentido pedagógico da fala deste personagem é claro. Diz ele: “Se ele quer contratar, que diga quanto vai pagar. Peçam para ver a licença. Ele não pode contratar sem licença.” O proletário insubmisso, consciente dos direitos trabalhistas, ao enfrentar os transgressores da lei, logo é imputado (e intimidado) como agitador comunista. No filme “Vinhas da Ira” é o que ocorre pelo menos duas vezes. O capitalista arregimentador exclama para a multidão: “Não escutem esses agitadores. Venham todos para o condado de Tovaris”.

Mas a condição de proletariedade em sua forma primordial, onde a taxa de exploração assume dimensões alarmantes, tende a criar sua própria negação. A insatisfação proletária cresce e com ela vem a greve, a primeira forma de luta social do trabalho assalariado contra a voracidade do capital. No filme “Vinhas da Ira”, a greve é um dos elementos de desenvolvimento da consciência de classe. Ao chegarem noutro acampamento no Rancho Kenne, em busca de trabalho, a família Joad se depara com uma multidão agitada. Tom Observa: “Não sei o que a policia tem a ver com isso, mas não estou gostando. São nossa gente também. Todos eles. Não gosto disso.” Ele ainda não sabe que trata-se de um greve de proletários agrícolas que boicotam os salários de miséria pago pelo Rancho Kenee.

No Rancho Kenee temos o primeiro contato da família Joad com o sistema de exploração dos proletários agrícolas. Nos alojamentos, campos de concentração de proletários agrícolas, homens, mulheres e crianças são conduzidos, sob a vigilância de homens armados, para a colheita de fruta. Em fila indiana, carregam seus baldes, instrumentos de trabalho. Antes, os trabalhadores sem-terra tiveram que se cadastrar. O trabalho de colheita é levado a cabo por toda a família: “Cinco centavos por caixa. Sem machucar a fruta”, diz o capataz.

Antes soubemos que um pão custa 15 centavos e mais tarde iremos saber, segundo os cálculos de Casy, que, caso eles abaixem o valor do salário para dois centavos e meio por caixa, isto significará 1 tonelada de pêssegos, colhida e carregada por um dólar. Isto é, este valor de cinco centavos por caixa é pago sob as condições de greve, que torna escasso a oferta de força de trabalho na época de colheita no Rancho Kenee. Caso a greve acabe, a lei da oferta e da procura atua a favor do capital e os salários serão reduzidos para dois centavos e meio por caixa.

Além do salário de miséria, o sistema de exploração da força de trabalho do Rancho Kenee atua através de instâncias do consumo. Como disse Mom Joad: “Eles cobram a mais na venda da companhia, e não tem outro lugar.” Numa das cenas do filme em que aparece a fila de proletários agrícolas dirigindo-se para a colheita, surge, logo ao fundo, a imagem do “Ranch Store”, a loja da companhia. Deste modo, a exploração da força de trabalho, a criação de valor e a extração da mais-valia, ocorre através das relações de produção no processo de trabalho (eles produzem mais – colhem mais frutas – do que ganham como salário – a diferença é a mais-valia, apropriada pelo capitalista). Mas ela é complementada pela extorsão/espoliação através das relações de consumo (eles vendem os produtos de subsistência da força de trabalho a um preço abusivo, apropriando-se através da venda, e portanto da circulação das mercadorias, de parte significativa dos salários pagos). Estamos diante de uma forma social de “escravidão assalariada”. Portanto, eis outro elemento da condição de proletariedade, demarcada não apenas pelas relações sociais de exploração propriamente dita, mas pelas relações sociais de extorsão/espoliação através do consumo.

Os proletários pobres do campo vivem apenas para trabalhar na colheita de frutas e reproduzir suas energias da força de trabalho. O intenso trabalho diário de colheita abate a corporalidade viva de homens e mulheres. Por exemplo, num certo momento, o velho Joad, ex-agricultor, sente, ao final do dia, o peso do trabalho estranhado. Diz ele: “Quem diria que levantar o braço e colher a fruta lhe arrebentaria as costas?”. O salário de miséria não leva em consideração o desgaste contínuo da força de trabalho. Logo, a família Joad terá reduzida a quantidade de braços de trabalho, reduzindo-se, deste modo, a renda familiar. No geral, o sistema de exploração tende a “queimar” trabalho vivo e promover um desgaste contínuo da força de trabalho, que não é contabilizado nos salários pagos pelo capitalista arrendatário.

O diálogo entre Tom Joad, Casy e seus companheiros numa tenda nas imediações do alojamento do Rancho Kenee é um dos pontos altos do filme “Vinhas da Ira”. Nesta cena desvela-se a lógica da exploração do capital e não apenas isso – expõe-se a necessidade da ação coletiva através da greve como forma de luta contra a exploração da força de trabalho.

Tom Joad toma conhecimento da greve que atinge o Rancho Kenee. É uma greve por salários. Os proletários agrícolas lutam contra dois centavos e meio por caixa de fruta colhida. Eles pagam hoje cinco centavos por caixa. Diz Tom: “Cinco centavos a caixa não é muito, mas dá para comer”. Mas Casy pondera o seguinte: “Eles dizem que será cinco centavos, mas há muitos de nós. Então o homem diz dois centavos e meio. Uma pessoa não pode comer com isso e se tiver filhos...Então dissemos que não aceitaríamos.” Eis o motivo da greve. E o ex-pregador prossegue explicando: “Eles nos expulsaram. Agora estão pagando cinco centavos. Se pararem a greve, acha que continuarão pagando cinco?”. Enfim, ele tenta ponderar com Tom, utilizando uma argumentação racional. E exclama: “Eles pagarão dois centavos e meio assim que formos embora” (nesta cena do diálogo de Casy com Tom Joad, é fabuloso o jogo de sombras, a fotografia de claros-escuros, na face de Casy, obra do genial Gregg Toland, o fotografo de “Cidadão Kane”, de Orson Welles). E Casy expõe para Tom o significado de dois centavos e meio por caixa: a superexploração da força de trabalho. Diz ele – e neste momento sua face se ilumina: “Uma tonelada de pêssegos colhida e carregada por um dólar. Desse jeito não nem para a comida.”

Casy apela para o apoio da familia Joad à greve: “Diga para eles saírem conosco. Os pêssegos estão maduros. Dois dias fora e eles nos pagarão cinco. Talvez até sete.” O ex-pregador demonstra ter desenvolvido uma perspicácia proletária na luta contra a exploração da fora de trabalho. Inclusive, percebe o momento exato para obter maior poder de barganha na negociação com o capital. O que ele busca é colocar obstáculos à degradação física e moral da força de trabalho. Não existem sindicatos, mas sim proletários organizados que lutam através da greve, o mais contingente instrumento do trabalho vivo contra a exploração do capital.


Mas a disposição e o nível de organização da luta de classes é uma variável da consciência de classe. O jovem Tom Joad sabe que a consciência de classe proletária ainda é incipiente na sua família. Eles vivem como proletários, mas ainda não possuem uma visão de mundo proletária. Além disso, há o limite da pseudoconcreticidade da consciência cotidiana que os aprisiona na imediatez. Como observa Tom: “Estão recebendo cinco agora. Não se importam com mais nada.” Mais adiante ele diz: “Sei o que meu pai diria: não é da conta dele”. Casy retruca: “Ele terá de sofrer para aprender.”. Ora, o sofrimento é um elemento de catalisação da consciência de classe. Foi o que Casy aprendeu. Mas é claro que, por si só, o sofrimento não implica na consciência de classe necessária, mas é um elemento importante para a sedimentação da consciência de classe contingente, que abre possibilidades objetivas para a visão de mundo proletária e quiçá, a ideologia socialista.

O que se trata em “Vinhas da Ira” não é da formação da consciência de classe necessária, tendo em vista que não se discute sindicato ou partido de classe proletária, mas sim dos elementos formativos da consciência de classe contingente e da base existencial que contribuiu, pelo menos como possibilidade concreta, para o desenvolvimento da consciência de classe necessária. Além da exposição da lógica do capital, o que se discute no diálogo com Casy e seus companheiros é o tema da consciência de classe.

Num primeiro momento, o jovem Tom Joad expõem as formas da consciência ingênua que precede a consciência crítica ou consciência de classe, que num primeiro momento, assume a forma de consciência de classe contingente. Tom observa que os Joad estão recebendo cinco centavos e não se importam com nada. Assim, estão imersos na pseudocoencreticidade (termo utilizado por Karel Kosik no livro “Dialética do Concreto”). É o acomodamento que se contenta com a imediatez suficiente. É o acomodamento que os leva a se fecharem em torno de si: “Não é da conta dele”, observa o jovem Tom; ou ainda, “Acha que papai vai abrir de carne por causa de estranhos?”. Enfim, a consciência ingênua, que é a consciência pequeno-burguesa, incapaz de apreender as mediações complexas de uma sociedade de classes cindida entre o trabalho e o capital, imersa na imediaticidade particularista, tende a dispensar a idéia de movimento de classe. Na verdade, a classe são os “estranhos”.

Em geral, o acomodamento da consciência ingênua acredita que a imediatez por si só possa ir além da suficiência e realizar as ilusões almejadas. Por exemplo, num certo momento do filme, o velho Joad expressou a seguinte idéia sobre a Califórnia: “Mas eles pagam bom salário, nos juntaremos e ficaremos bem”. Para ele, cinco centavos parecia ser suficiente e como há muitos braços na família, consegue-se uma renda familiar adequada.

Nesse caso, há uma base material para o acomodamento do velho Joad. Mas a lógica do capital não é dada de imediato. Como observou Casy, “Quando não estiverem mais em greve, eles não receberão cinco.”. Isto é, a suficiência relativa dos Joad que os leva a se acomodarem e a pensar só em si, depende, sem eles saberem, do movimento grevista, de um coletivo organizado que protesta. Quando a greve acabar, os salários dos proletários ativos serão rebaixados para dois centavos e meio.

Deste modo, a condição de proletariedade irá se explicitar com vigor: “Depois da colheita, você só é um itinerante. Depois, um mendigo.” O movimento do capital, ao exacerbar a condição de proletariedade, cria uma borda ampliada de excluídos, de lumpenproletários, mendigos, inválidos, inservíveis para a produção do capital. Para os imersos na condição pura de proletariedade, o movimento de capital é uma máquina de moer gente. Deixados por si só, o mercado, como diria Karl Polanyi, torna-se um “moinho satânico”.

Finalmente o ex-pregador Casy diz para o jovem Tom: “Você deve aprender como eu. Eu mesmo não sei o que é certo, mas estou tentando descobrir. É por isso que não posso ser pregador de novo. Pregadores devem saber e eu não sei. Eu tenho de perguntar.” Neste momento, coloca-se uma interessante questão: o intelectual orgânico da classe proletária possui um estatuto epistemológico (e gnoseológico) de novo tipo, que o distingue dos intelectuais tradicionais, que pregam uma verdade estabelecida, herdada das Escrituras. Ao proletarizar-se, Casy rompeu com o padrão do intelectual tradicional.

É claro que Casy era o que denominamos de “intelectual orgânico” da comunidade agrícola local, pregador de Verdades Estabelecidas. Mas, a rigor, ele era um “intelectual tradicional” que pregava verdades estabelecidas adequadas àquele grupo social. O surgimento do proletariado na cena histórica e a condição de proletariedade como condição moderna, iriam impor um novo tipo de intelectual que luta, organiza e se interroga sempre, buscando construir formas hegemônicas capazes de criar a nova sociedade na Terra. Para intelectuais orgânicos como o ex-pregador Casy, nada está escrito. É preciso investigar e se interrogar sempre para buscar conhecer o concreto como síntese de múltiplas determinações reiteradas e de novo tipo.

Num certo momento, Casy diz:“Pregadores devem saber e eu não sei”. Um pregador é um intelectual tradicional, mas um ativista social como o ex-pregador Casy é um intelectual orgânico que sempre busca saber para intervir e transformar a realidade existente. Ora, jamais o ex-pregador Casy poderá ser pregador, pois ele está imerso na “dúvida metódica” que funda a epistemologia crítica. O que o move é a busca do que é certo. Na verdade, o movimento de busca é o valor fundamental da nova concepção de mundo, pois o que é certo é dado historicamente.

E mais: quando Casy diz, “Eu tenho de perguntar”, significa que a verdade histórica é construída socialmente, é um processo de intersubjetividade coletiva e de luta de classe. A pergunta é o ato fundamental (e fundante) da práxis histórica, mesmo que a resposta seja o dado que dura, como diria Lukács. O filosofo húngaro, ao dizer que o homem é ser que dá respostas, quis dizer que o homem é um ser que busca respostas, que interroga outros e se interroga na busca de respostas que é obrigado a dar para enfrentar as circunstâncias cambiantes.

O tema da consciência social de classe é um tema candente no filme “Vinhas da Ira”. Os personagens Casy, Tom Joad e inclusive Mom Joad estão imersos do dilema de entender e compreender o novo mundo proletário que os atinge. A proletarização, portanto, instaura um ato epistemolgico. Ela funda uma nova visão de mundo, que é a visão de mundo proletária. Pode-se até dizer que Karl Marx e Friedrich Engels representam a nova episteme da proletarizacão e da condição proletária que se instaura na modernidade do capital.

O jovem Tom Joad é perseguido por matar acidentalmente um vigilante do Rancho Knee. Naquela noite, revoltado com o assassinato de Casy, Tom agredira em legitima defesa, o guarda. Num certo momento, Mom Joad nos diz: “Quisera que não tivesse feito. Mas você fez o que tinha que fazer. Não posso culpá-lo. Tem muita coisa que eu não entendo”. Enfim, a dialética entre liberdade e necessidade é candente. Tom fez o que tinha que fazer. Talvez sua nova condição de classe o obrigara. Ele fora levado pelas circunstâncias. Homens imersos na condição de proletariedade são levados pelas circunstâncias. Ora, existe “culpa” no mundo do capital, onde os homens não são livres, isto é, não são sujeitos de si ? Eis a pergunta. Antes de ser um problema epistemológico, esta interrogação é um problema moral. Mom Joad não o culpa. Mas adiante diz: “Tem muita coisa que eu não entendo”. Ela lamenta, deste modo, a condição de proletariedade, que se contrasta com a condição pretérita, onde havia liberdade e onde as categorias morais tinham algum sentido.
Em última instância, poderíamos dizer que a epistemologia deriva da moral. Diz Mom Joad: “Quando cultivávamos a terra, havia uma certeza nas coisas. Os velhos morriam e os pequeninos nasciam, mas éramos sempre uma coisa. Éramos uma família. Era perfeito e simples. Mas agora nada mais é simples. Ficou tudo complicado.” Ela expõe o dilaceramento dos papeis tradicionais:“Al fica falando de ficar por conta própria. Papai perdeu seu lugar. Ele não é mais o cabeça da família”. E conclui: “Estamos nos dividindo. Não existe mais família”.

Como mãe, a matriarca dos Joad se preocupa com as gerações futuras e vislumbra que a condição de proletariedade contém os germes da corrosão do caráter e da barbárie social: “Rosasharn vai ter o bebe. Mas ele não vai ter família. E Winfield? O que será dele desse jeito?. Crescendo selvagem. E a Rutchie também. Como animais. Sem nada em que confiar. ”.

Enfim, como podemos entender um mundo que não nos pertence? Como podemos ser sujeitos morais num mundo da necessidade? Qual a moral do mundo do capital? Enfim, o que Mom Joad expressa é o último lamento que prenuncia gestação de uma consciência de classe. Tal como Casy e Tom, Mom Joad está digerindo a condição da proletariedade com emoção e razão. Mas antes de Tom Joad partir, mais adiante, Mom Joad irá ouvi-lo falar da nova consciência social e da consciência de classe ainda em sua dimensão contingente, mas no limiar da consciência de classe necessária.

Tom Joad aprendera com o ex-pregador Casy, que para ele foi como uma lanterna, como ele mesmo disse: “Ele me ajudou a ver as coisas”. A fala final de Tom Joad é um libelo contra a exploração capitalista que concentra e centraliza a propriedade dos meios de produção. Na verdade, ao invés de realizar a propriedade privada individual, o capitalismo a abole. A propriedade privada do capital não é a propriedade pessoal, que sirva ao individuo e seu desenvolvimento humano-genérico (a propriedade privada capitalista é a primeira negação da propriedade privada individual, baseada no trabalho). É algo que Marx destacara no capítulo XXIV do tomo I de “O Capital”).

Tom Joad observara: “Como vivemos feito porcos com tantas terras desocupadas. Ou sobre um sujeito com milhões de acres com 100 mil sitiantes famintos. Fico pensando se todos nós nos uníssemos e gritássemos...”. Mas Mom Joad sabe que o mundo do capital é cruel com os pobres. Antes, ela temia que o sistema prisional tivesse maltratado o filho Tom. Dissera: “Eles o machucam até você se tornar um homem mau”. Agora, diante da atitude insurgente do filho, observa: “Não, eles o perseguiriam e o matariam. Como fizeram com Casy.”
No filme “Vinhas da Ira”, homens e mulheres, individualidades de classe, estão imersos no “destino” da condição proletária. No caso de Tom Joad, com sua personalidade insurgente, apaixonado pela justiça social e incapaz de aceitar as simulações sistêmicas, é previsível o conflito acirrado com o mundo do capital. Tom sabe disso quando afirma: “Serei perseguido de qualquer jeito. Cedo ou tarde eles me alcançarão, por uma coisa ou por outra.”

Quase que incorporando o principio heurístico-existencial de Casy, Tom Joad assume a condição de proletariedade como um campo de formação critico-prática da nova consciência de classe. Ele identifica “fazer algo” com “aprender algo” e “aprender algo” com ‘buscar” os novos valores de classe. É a própria ideia de práxis prático-sensível. Diz: “Já que sou um fora-da-lei mesmo talvez eu possa fazer algo. Talvez eu possa aprender algo. Apenas buscar e descobrir o que está errado. E então ver se dá para fazer algo a respeito. Não pensei direito ainda. Não posso. Não sei o suficiente. ”.

Na verdade, quando é que ele, como o ex-pregador Casy, irá saber o suficiente? Não existem verdades estabelecidas e a práxis prático-sensível que busca transformar o mundo e não apenas interpretá-lo exigem sujeitos abertos à realidade processual, realidade efetiva, sujeitos prático-sensiveis que duvidem sempre em busca do que está errado.

Na última fala de Tom Joad, ele expressa um tipo de consciência de classe contingente quase no limar da consciência de classe necessária, tendo em vista que apreende a idéia de classe social como “alma grande’, indo além do individualismo pequeno-burguês particularista ou do mero corporativismo de fração de classe. É claro que em seu horizonte a linguagem é quase mística e não se colocam categorias da luta política e sindical. Ele não desvelara ainda a natureza íntima do modo de produção capitalista, nem do Estado burguês e da sua negação através da luta pelo socialismo.

Tom Joad ainda não é um socialista consciente. Ele expressa princípios morais socialistas ainda em sua forma ingênua. A mãe Joad, sempre preocupada com o filho querido que está partindo para o mundo, pergunta: “Como saberei de você? Eles podem mata-lo e eu não saberei. Eles podem machucá-lo. Como vou saber?” E Tom expressa o que aprendera com o ex-pregador Casy. É uma das falas memoráveis do filme “Vinhas da Ira” que iremos transcrever na íntegra. Disse ele: “Talvez seja como Casy disse. Um homem não tem sua própria alma, apenas um pedaço de uma alma grande. Uma alma grande que pertence a todos.” E prossegue: “Eu estarei nos cantos escuros. Estarei em todo lugar. Onde quer que olhe. Onde houver uma luta para que os famintos possam comer, eu estarei lá. Onde houver um policial, surrando um sujeito, eu estarei lá. Estarei onde os homens gritam quando estão enlouquecidos. Estarei onde as crianças riem quando estão com fome e sabem que o jantar está pronto. E quando as pessoas estiverem comendo o que plantaram e vivendo nas casas que construíram, eu também estarei lá.”

É claro que Mom Joad ainda não possui a consciência de classe desenvolvida para acompanhar a visão de mundo do filho recém-proletário. Ela parece não acompanhar a mudança radical de perspectiva subjetiva do filho. Ela diz: “Eu não compreendo”. Como mãe camponesa, ligada a terra, categoria concreta onde se enraízam homens e mulheres, as grandes abstrações lhe fogem. Talvez ela não compreenda a idéia de “alma grande” ou do discurso místico-insurgente do ex-pregador Casy, adotado por Tom Joad, diante do mundo concreto do capital. O próprio Tom ainda busca aprender o significado concreto da fala de Casy. Ele diz:“Nem eu, mas é algo que venho pensando”.

Mais adiante, Mom Joad iria expressar, de forma mais concreta, a idéia de “alma grande” através da idéia de “povo”. Na fala final do filme “Vinhas da Ira”, em direção a plantação de algodão, dentro do velho calhambeque, para mais uma tarefa da vida de proletário agrícola, ela conversa com o velho Joad e o filho mais novo. Em certo momento, perguntam a ela se estava com medo. Ela diz: “Eu nunca mais terei medo. Eu tive, porém. Cheguei a pensar que estávamos perdidos. Parecia que só tínhamos inimigos nesse mundo. Como se ninguém mais fosse amistoso. Eu me senti mal e assustada. Como se estivéssemos perdidos e ninguém ligasse.” Talvez a experiência de consciência de classe do filho Tom e a experiência vivida no alojamento coletivo do Ministério da Agricultura tenha conseguido recuperar a dignidade humana da família Joad, contribuindo para a nova força moral da mãe Joad.

A condição de proletariedade contém elementos de dessocialização e barbárie social. O proletariado imerso na proletariedade extrema está perdido, jogado em si, na irremediável deriva, sem que ninguém olhe para ele. O mundo da proletariedade extrema é o mundo da concorrência acirrada, do particularismo exacerbado, o mundo social do “homo homini lupus”.

Num primeiro momento, com a proletarização, Mom Joad constatara o espectro da barbárie social ao temer a brutalização contra o filho Tom. Mas o espírito insurgente de Tom Joad, espírito de luta que busca resistir à condição proletária, preservando um núcleo humano-generico sem se submeter à barbárie social (o que seria a prefiguração metafórica do movimento operário); e a experiência social (e política) do Estado social, ainda como mero de nicho de preservação da dignidade humana através do New Deal, expresso através da experiência do alojamento do Ministério da Agricultura, podem ter contribuído para sua mudança de atitude moral.

Num certo momento, um dos filhos da matriarca da família Joad diz: “É você quem nos dá força, mãe”. Mas parece que Mom Joad rompeu com a ótica da antiga comunidade agrícola, onde a mãe é a força moral da família. Os tempos mudaram. A condição de proletariedade exige novos valores e novos laços morais. Ela diz: “Eu não sirvo mais para nada e sei disso. Parece que só fico pensando como costumava fazer. Pensando na nossa casa. Que nunca mais a verei. ”. Enfim, ela ainda luta com visões de um passado de classe camponesa desefetivada.

Por um lado, Mom Joad acredita que a sua força moral advém de uma questão de gênero, lastro primordial que distingue homens e mulheres diante das agruras da vida. Diz ela: “A mulher se adapta melhor que o homem. Um homem vive meio que aos solavancos. Bebês nascem e alguém morre, isso é um solavanco. Ele compra um sitio ou perde, isso é um solavanco. Com a mulher ;e constante como um riacho. Pequenos redemoinhos e cascatas, mas o rio continua. A mulher encara dessa maneira.”

Por outro lado, reconhece que a força moral advém da experiência de sofrimento proletário. No filme “Vinhas da Ira”, sofrer é um elemento de conscientização em sua forma contingente, capaz de destruir as mistificações sistêmicas, expondo a verdade da condição proletária. Por exemplo, quando Casy observou para Tom Joad, certa vez, ao discutir a não-adesão do velho Joad à greve dos proetarios agrícolas: “Ele terá de sofrer para apender”. Sofrer também contribui como força moral. Enfim, consciência critica e força moral são determinações reflexivas em “Vinhas da Ira”. Uma não existe sem a outra. Elas provém de um processo existencial de sofrimento como processo desmitificador. Como observou Mom Joad, na fala final do filme, em tom magistral: “É isso que nos faz fortes. Os ricos nascem e morrem, e seus filhos também não prestam e desaparecem. Mas nós continuamos. Somos nós que vivemos. Eles não podem acabar conosco. Não podem nos vencer. Nós viveremos para sempre pai, Porque nós somos o povo.”

Finalmente, é importante tecer alguma reflexão sobre o significado do alojamento do Ministério da Agricultura (FarmWorkers’ Wheat Patch Camp) , que a família Joad se depara, por acaso, ao fugir do acampamento do Rancho Knee. No filme “Vinhas da Ira”, o alojamento coletivo do Ministério da Agricultura possui um claro sentido ideológico: destacar a importância do papel do Estado político de novo tipo, o Estado social do New Deal, na construção de uma coesão social dilacerada pela lógica mercantil. Deixar o proletariado à mercê do mercado de trabalho, nas mãos de predadores, é contribuir para o desastre social. É preciso uma intervenção mediadora, capaz de colocar obstáculos contra a voracidade do capital, evitando a degradação física e moral do proletariado.

É a ideologia do New Deal que transparece no filme de John Ford. Inclusive a figura do administrador é muito parecida com o do Presidente Roosevelt. Nesse caso, o Estado social mantém seu caráter de classe – ele não abole a propriedade privada capitalista, nem a lei do mercado – mas evita que a dinâmica social seja dilacerado pelos interesses dos capitalistas individuais, como é o caso do capitalista arrendatário que burla a lei e superexplora o proletariado. O Estado social instaura direitos trabalhistas que regulam a exploração da força de trabalho. Ele não abole o capital, mas evita que ele dilacere a coesão social.

Mas a cena da FarmWorkers’ Wheat Patch Camp possui elementos interessantes para uma operação de contraste entre o mundo do Estado social, que prenuncia um tipo de capitalismo organizado, e o mundo do mercado total, sob a forma da precariedade extrema, da superexploração da força de trabalho e da negação das garantias e direitos trabalhista e sociais, como ocorreu na passagem para a segunda modernidade do capital no século XIX, quando se constituiu um capitalismo desorganziado, e como ocorre hoje, no bojo do século XXI, sob a terceira modernidade do capital, com o processo de precarização que atinge o mundo do trabalho. É importante salientar que os proletários da família Joad não encontram um oásis socialista, mas sim um espaço de sociabilidade criado pelo poder público, o Estado social do Welfare State in germe, onde eles poderiam desenvolver habilidades comunitárias e inclusive de autonomia pessoal.

É interessante o modo de organização do FarmWorkers’ Wheat Patch Camp. Logo que chegam, o administrador local justifica a colocação de pequenos obstáculos para barrar a alta velocidade de veículos que chegam no acampamento. Diz ele: “Muitas crianças brincam aqui. Muitas pessoas esquecem que é para dirigir devagar”. Na verdade, o mundo exterior ao acampamento do Ministério da Agricultura é um mundo hostil, o mundo do mercado, mundo da alta velocidade que impede que as crianças brinquem com segurança.
O administrador os recebe com cortesia e educação. Temos o primeiro contraste com a recepção fria e grosseira que tiveram no acampamento da fazenda Kenee. No acampamento do governo do New Deal existem unidades sanitárias. É algo que a família Joad desconhece. Mom Joad pergunta: “O que é isso?”. O administrador responde: “Banheiro, chuveiro, tanque de lavar roupa”. Ora, o FarmWorkers’ Wheat Patch Camp é uma organização coletiva. Quando viviam no sitio em Sallislaw, a familia Joad vivia numa organização familiar, num tipo de trabalho privado, pois a família era a célula original daquele universo social. Mas no mundo da proletariedade, que joga homens e mulheres numa vida social degradada, implode-se os valores familiares e nega-se qualquer tipo de sociabilidade e de espírito coletivo. Portanto, o que se coloca, num primeiro momento, é a necessidade de recompor o universo sócio-humano através de organizações coletivas.
O novo aprendizado da família Joad é reencontrar os valores comunitários primordiais através da nova comunidade constituída pelo Estado social: alojamentos coletivos geridos pelos próprios proletários. O administrador diz que existem comitês que gerenciam o alojamento. Diz para Mom Joad: “As pessoas elegem seus próprios tiras. O comitê feminino falará com a senhora. Explicarão sobre as crianças, as escolas, as unidades sanitárias e quem cuida delas.” Mas logo a seguir diz: “Quer entrar e se registrar?”. Para usufruir deste novo ambiente de sociabilidade a família Joad precisa se registrar. Eis um dos traços do controle estatal ineliminável.

Enfim, o Estado social constitui um ambiente organizacional que propicia a explicitação de elementos de sociabilidade de autonomia coletiva. A experiência do FarmWorkers’ Wheat Patch Camp não significa a abolição do capital. O Estado político como Estado social continua existindo como estrutura de dominação de classe, isto é, instância política de dominação dos capitalistas em geral, que busca criar condições para a reprodução social e acumulação de capital nas condições da produção em massa e da socialização da produção num contexto histórico de aguda luta de classe. Além disso, o Estado social surge no contexto geopolítico da experiência da União Soviética, que inspirava os “vermelhos”, ou seja, a utopia da negação do capitalismo e da instauração do socialismo mundial.

É Tom Joad quem vai conversar com o administrador. Ele toma conhecimento da organização coletiva do FarmWorkers’ Wheat Patch Camp. O jovem Tom está aprendendo o que é o mundo do capital. Nesse momento, vislumbra algo novo. Existe um outro mundo possível, diferente do mundo do mercado. O administrador explica que o acampamento se organiza em cinco unidades sanitárias onde cada uma elege seu representante. O que se coloca é o valor da democracia social que possui um caráter representativo. Diz o adminstrador: “Eles fazem as leis e todos obedecem”.

Ora, é algo quase inacreditável para Tom Joad. Ele exclama: “Está dizendo que quem cuida do acampamento é a própria gente que acampa.” O jovem Joad está surpreso pois o acampamento não possui “tiras”. Falta a coerção policial que é uma das presenças constantes no cenário social da proletariedade extrema. Na verdade, o acampamento altera a condição de proletarieddae extrema. A partir do momento que o Estado social intervém, ela torna-se uma proletariedade regulada.

O administrador fala dos bailes que ocorrem no acampamento. É um tipo de espaço de comunidade e de sociabilidade face-to-face, comum nas pequenas comunidades tradicionais. “Mal posso acreditar”, diz ele. Tom pergunta: “Quem administra este lugar?” – interroga ele. “O governo”, responde o administrador. Eis o caráter político do Estado social do New Deal: o governo protegendo os proletários pobres. Mas Tom é um sujeito interrogante, que busca conhecer o mundo do capital e suas formas de ser. Faz uma pergunta fundamental: “Por que não há mais assim?”. Ele demonstra um anseio de generalizar esta experiência coletiva do FarmWorkers’ Wheat Patch Camp, verdadeira experiência de uma humanidade perdida. Mas a resposta do administrador é enigmática: “Talvez você descubra, eu não sei.”

Enfim, por que o New Deal não generalizou as experiências de sociabilidade e autonomia coletiva constituídas no interior do Estado social? Talvez porque o compromisso de classe tenha impedido que se generalizasse as novas relações sociais de produção e reprodução da vida social. Elas com certeza iriam incomodar a lógica do mercado e dos interesses das grandes corporações. O Estado social temia realizar seu conteúdo social, pois deste modo iria negar enquanto Estado político pressuposto, isto é, Estado do capital. O administrador não podia dar esta resposta para Tom Joad. Ele teria que descobrir por si só.

A função do FarmWorkers’ Wheat Patch Camp era servir como alojamento digno para proletários que poderiam ser contratados para trabalho nas fazendas da região. Portanto, apesar do conteúdo social, o acampamento do governo tinha uma função privada, isto é, servia aos interesses dos capitalistas agrícolas que se dispunham a contratar trabalhadores regulares, de acordo com as leis trabalhistas vigentes. Tom Joad pergunta: “Tem trabalho por aqui?”. É isto que lhe interessa naquele momento, O administrador lhe diz, no discurso do Estado social: “Não posso prometer nada, mas mais tarde poderá falar com um agente licenciado.”

Enfim, o governo apenas organiza e cria as condições sócio-reprodutivas para um “capitalismo humano”. Eis a ideologia do Welfare State, isto é, a ideologia do Estado da social-democracia clássica. O ambiente social do FarmWorkers’ Wheat Patch Camp é um ambiente de contenção da superexploração do trabalho e de regulação social através do Estado político democrático-social, onde se preserva a dignidade física e moral do proletariado agrícola. Neste novo ambiente social combate-se também o desperdício. A cena em que Tom fecha uma torneira vazando água, diante da placa Turn off water. Help keep Camp ground clean é expressiva. Enfim, é um outro mundo social, um pequeno oásis no deserto do mercado.

O filme “Vinhas da Ira” conclui com a família Joad entrando numa condição de proletariedade regulada. É o trabalho estranhado à sombra do governo social-democrata. – eles não são proprietários, nem possuem a posse dos meios de produção, mas possuem agora direitos social e direitos trabalhistas que lhes garante o que pode ser chamado de cidadania salarial, isto é, aceso ao mundo do consumo e da reprodução social. O filme termina, portanto, com a passagem de uma proletariedade extrema para uma proletariedade regulada que veio a caracterizar, no pós-guerra, o Welfare State.

É claro que a família Joad não pertence mais a “classe intermediária”. Antes, embora eles não tivessem a propriedade da terra, tinham a posse dos meios de produção, o que lhes dava uma condição subjetiva que os colocava num horizonte ideológica da pequena-burguesia. Eram produtores autônomos, embora não possuíssem a propriedade privada dos meios de produção. O que lhes garantia a autonomia no trabalho era a posse da terra e o manejo das ferramentas de trabalho. Pagavam uma renda da terra, um tipo de um aluguel, o que significava que tinham clareza do produto do trabalho e do quantum de expropriação a que estavam submetidos. Como camponeses arrendentários de produção familiar não estavam à mercê das leis do mercado.
Foi a crise do sistema de arrendamento que expulsou os camponeses. Ficou mais interessante para os proprietários da terra, que hipotecaram as terras para o banco, acabar com o velho sistema de arrendamento e colocar no lugar das famílias camponesas, trabalhadores assalariados e máquinas voltadas para a produção agrícola mais racionalizada. A família Joad, como outras famílias camponesas, foi jogada na condição de proletariedade extrema.

No final do filme, a família Joad, depois de uma odisséia pela situação de proletariedade extrema, eles passam para a condição de proletariedade regulada, onde se altera, não apenas a condição objetiva da exploração do trabalho, que existia também no sistema de arrendamento, embora lá não fosse trabalho assalariado, mas a sua condição subjetiva. O proletário em situação extrema está diante da negação de si, como individuo de classe, sempre a beira de ser jogado no lumpensinato. Possui clareza da condição da classe proletária, pois seus elementos constitutivos são mais claros e intensos. Deste modo, a possibilidade de desenvolvimento de sua consciência de classe é mais aguda, embora ainda contingente. Mas ao mesmo tempo, a consciência de classe encontra-se sempre sob a “espada de Damocles” da desefetivação plena.

Por outro lado, o proletário em situação salarial regulada encontra condições para se afirmar como individuo de classe, imerso na contingência, mas não de modo absoluto. É claro que o proletário não possui a propriedade nem a posse dos meios de produção (e de reprodução) social. Mas na medida em que se insere no mundo da mercadoria, e ele próprio é mercadoria, embora de modo relativo, a posse das coisas constitui sua condição subjetiva e seu horizonte ideológico. É o fetichismo da mercadoria que constrange, em termos relativos, sua consciência de classe. Ele vive imerso na ilusão das coisas.

Por exemplo, antes, a família Joad, enquanto camponeses arrendatários, estava imersa na ilusão da terra que não era de sua propriedade, embora tivessem a posse dela. Eles se auto-apreendiam como “pequenos produtores” ou “classe média”, onde a condição de proletariedade não se explicita de forma tão intensa e aguda como na situação de proletariedade extrema. Na verdade, a posição do fetichismo da coisa, a mera posse das terras, transfigurava a consciência de classe, alterando a condição objetiva de pertencimento de classe da família Joad. Eles não se viam como proletários e não eram proletários, embora não fossem proprietários dos meios de produção.

Talvez o poder da posse das coisas - meios de produção, objetos de consumo e inclusive habilidades técnico-profissionais – seja a chave para explicar o problema da “nova pequeno-burguesia” e da nova classe operária e dos empregados assalariados, com a ampliação do mundo das mercadorias. Na medida em que homens e mulheres proletários adquirem a posse de coisas, muitas delas obtidas no mercado (inclusive habilidades técnico-profissionais), eles tendem a serem deslocados do seu pertencimento de classe. As coisas tendem a exercer uma “força gravitacional” sobre a condição de proletariedade, obstaculizando a formação da consciência de classe proletária e da própria classe social.

Ora, o que se revela é a função sócio-reprodutiva da ampliação do mundo das mercadorias no plano da consciência de classe. O predomínio da estética da mercadoria possui um impacto decisivo na fenomenologia das classes e de seus horizontes subjetivos. Na verdade, trata-se de uma objetividade social e não de mera impostação capitalista. Por um lado, as mercadorias tornaram-se, por conta da produção social, uma nova “pele” da sociabilidade estranhada. As relações sociais são cada vez mais mediadas pelas coisas como produto-mercadorias. Por outro lado, enquanto cidadão-proletário, os trabalhadores assalariados com direitos sociais e trabalhistas, possuem, através da organização corporativa e organização política, possibilidades de desenvolver a consciência de classe necessária.

Giovanni Alves
(2006)

(ATENÇÃO: Esta análise de filme é parte do Projeto de Extensão Tela Crítica 2006)