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Paris,
Texas ,
(Paris, Texas)
de Wim Wenders
(1984)

Eixo
Temático
A
crise estrutural do capital implica a crise de suas instâncias
sócio-reprodutivas e de suas personificações
estranhadas. A familia é uma das instâncias sócio-reprodutivas
mais importantes do metabolismo social do capital. A crise
do pai é a crise da autoridade moral da sociedade
burguesa. Ela implica na obsolescencia da figura do pai como
elemento estruturante das relações familiares.
Por outro lado, a crise do pai é a crise do macho e
do sujeito dominante nas relações entre os sexos.
Remete também a crise moral (e de legitimidade) do
Estado burguês.
Temas-chaves:
capitalismo, estranhamento, familia, sociabilidade, afetividade.
Filmes
relacionados: “Beleza America", de Sam Mendes.
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Análise
do Filme
O
tema candente no filme “Paris,Texas”, de Wim Wenders é
a crise (e obsolescência) da figura do pai na ordem burguesa hipertardia
– o pai como representação da autoridade moral na
sociedade burguesa. É um dos elementos da crise da familia burguesa
e das instâncias sócio-reprodutivas do capital. Eis o eixo
temático estruturante da narrativa. Num primeiro momento, verificamos
que o personagem do filme de Wenders, Travis Henderson, é um
homem que vive uma intensa crise pessoal detonada por um desencanto
afetivo ligado a uma relação conjugal problemática.
Eis o “disparador existencial” do drama de Wim Wender. Aos
poucos compõem-se o “quebra-cabeça” existencial
do filme.
É claro que, num primeiro momento, logo na abertura do filme
“Paris,Texas”, colocamos a seguinte questão: o que
aconteceu com o pobre Travis para que o encontremos vagando pelo deserto
no interior do Texas? Ao som da música visceral de Ry Corder,
Travis aparece imerso na árida paisagem do deserto texano, sedento
e exausto, um espectro de homem, quase como um “morto-vivo”
à la George Romero.

Na verdade, ele parece ser um homem alucinado pela busca de si mesmo
(eis o significado do título do filme - Travis carrega uma pequena
foto de um lote vazio em Paris (no Texas), pequena localidade do interior
do Texas, próximo do Red River, onde, segundo ele, seus pais
se conheceram e onde Travis fora concebido). Deste modo, o título
do filme remete a um território que aparece como lastro ontogenético
de um homem, um pai, que persegue sua identidade pessoal. Ora, a raiz
de Travis é o espaço territorial e não o tempo
biográfico que está dissolvido em sua memória pessoal.
A remissão à raiz territorial como elemento de identidade
do sujeito negado, é um mote pós-moderno que Wim Wenders
expõe na narrativa de “Paris,Texas”.
Mas a raiz territorial de Travis remete à ideia de concepção
e não à de nascimento. Paris (no Texas) é o local
da concepção de Travis e não de seu nascimento.
A concepção é o fundamento de si, pré-história
de um homem, momento primordial de emersão de uma potentia humana
quase absoluta, quando passamos a ser, expelidos pelo Nada. Da concepção
ao nascimento, nove meses de um homem in fieri, estamos imersos no regozijo
existencial com a mãe-Natureza. Naquela etapa radical, ainda
não nos distinguimos efetivamente como pessoa, sendo apenas parte
do Universo materno, ligados pelo cordão umbilical. Não
há identidade pessoal possivel. Somos apenas uma promessa de
ser em gestação. É apenas um ponto de partida,
uma promessa candente de outro começo fundamental (e fundante)
em devir: o nascimento. Talvez seja o que Travis esteja buscando: recomeçar
(ou nascer de novo).
A temática de Wenders é uma temática intrinsecamente
pós-modernista. A imagem de Paris (no Texas) é o ponto
de partida radical para Travis (na verdade, Paris, no Texas, trata-se
apenas de uma imagem, uma velha fotografia que ele guarda). O espaço-tempo
de Travis está tão comprimido que se confunde consigo
mesmo. É um homem ensimesmado. Ao deslocar-se, gira em torno
de si mesmo. Ele flui no mesma diapasão. Não há
caminho, apenas um caminhar.

O filme “Paris, Texas” é a negação
do road movie, subgenero filmico que proclama o deslocamento
no espaço como traço indelevel da narrativa moderna. Ou
ainda, a conquista do espaço territorial como afirmação
de si. But the road is over. Na terceira modernidade do capital,
não há caminho.No filme de Wenders, o espaço-tempo
desmanchou-se no ar. Tornou-se meramente a imagem de um território
“radical” – isto é, raiz da concepção
do homem-pai.
Travis não é Tom Joad, de “ Vinhas da Ira”
(de John Ford, 1940), que vagueia em busca da liberdade e justiça,
valores sociais objetivamente sociais e marcados pela historicidade
de um capitalismo expansionista. É a época de ascensão
histórica do capitalismo. Nem Travis é Wyatt ou Billy,
personagens de "Sem Destino"- “Easy Rider” (1969),
outro road-movie clássico, onde os personagens hippies
buscam a América e, de certo modo, vislumbram que o caminho da
modernidade gloriosa do capital está se desmanchando. Tanto que,
ao final de sua viagem pelo interior dos EUA, os personagens buscam
encontrar-se numa “viagem interior”, aproveitando-se do
mardi gras de New Orleans para divagar no ácido lisergico. Easy
Rider tem um final trágico. Talvez seja um filme premonitório:
anuncia o era do ensimesmamento que marcaria a terceira modernidade
do capital (a partir da década de 1970). Ora, Travis é
o anti-herói ensimesmado da anti-narrativa pós-modernista.
Não há caminho, apenas um lugar imaginário, um
não-lugar: Paris, Texas.
Ora, Travis, de “Paris,Texas” é o anti-herói
ensimesmado da anti-narrativa pós-modernista. Não há
caminho, apenas um lugar imaginário, um não-lugar: Paris,
Texas. Ele acredita que tenha sido lá o local de sua concepção.
Travis cultiva seu mito pesoal. Ele é um homem perdido, alucinado
por uma busca de si. Como salientamos, ao estilo pós-modernista,
o filme de Wenders trata da busca de raízes. Comprimido em si,
o homem pós-moderno debate-se consigo próprio. Ela vageia
pelo seu espaço-tempo intimista, buscando o desconhecido, isto
é, a si mesmo, imerso em imagens distantes, verdadeiros pedaços
de si. Por outro lado, Travis, de “Paris, Texas” de Wim
Wenders, aparece como Paolo, o pai burguês do filme “Teorema”
de Pier Paolo Pasolini. É o espectro de homem que morreu, mas
que ainda vive (como o fantasma do pai de Hamlet). Talvez ele queira
nos prenunciar algo...Travis é o homem burguês, homem divagante,
homem impossivel.
Entretanto, no decorrer do filme “Paris, Texas”, Travis
renasce (ou pelo menos, reaparece) e, aos poucos, ele se coloca como
o homem-pai que busca reconstituir os laços afetivos (e familiares)
possíveis (a relação do filho com a mãe).
Não se coloca a posição do pai – o homem-pai
está obsoleto na narrativa de “Paris,Texas”.

“Paris,
Texas” não é um filme de reminiscencias. Travis
não quer voltar ao passado. Pelo contrário, as imagens
do passado lhe são estranhas (por exemplo, ao assistir o filme
Super-8 de Walt com antigas cenas familiares, Travis demonstra emoção
e indiferença – o passado está morto). A fuga de
Travis foi sua catarse. De certo modo, na origem , há uma imaturidade
visceral em Travis. Ele quer renascer, fugindo dos laços umbilicais
com suas fantasias inconscientes. Ora, em “Paris-Texas”,
o filho é o analista do pai. O homem-pai está transtornado
pelo passado morto – “morto-vivo”. O transtorno pessoal
é um elemento indicial de perda do pai. Num certo momento, ao
conversar com seu filho Hunter, deitado num suposto divã, Travis
lembra-se da mãe e do pai. Noutra cena anterior, ao observar
um álbum de familia, Travis aponta para Hunter, seu pai. O menino
pergunta: “Voce sente que ele está morto?”. E diz:
“Voce se lembra de quando ele andava e falava, certo? Então,
consegue sentir que ele foi embora?”. Travis diz: “Sim,
de vez em quando. Sei que ele morreu.” E Hunter observa: “Nunca
senti que tivesse morrido. Podia sentir sempre voce andando e falando
em algum lugar”. Na verdade, a obsolescencia do homem-pai em “Paris,Texas”
não é a sua morte fisica, mas a sua falta como elemento
estruturante das relações afetivas e social do mundo do
capital. Hunter sente a falta do pai (e da mãe).
Ao encontra-lo vagando pelo interior do Texas, o irmão Walt o
conduz de volta à California. Travis evita viajar de avião.
Sente pavor. Walt e Travis viajam de carro. Levam dois dias para chegar
à Los Angeles. É o tempo necessário que Travis
leva para se reaproximar de seu irmão Walt. Após quatro
anos, o pai reencontra o filho Hunter, de 8 anos, deixado na casa dos
tios pela mãe, após Travis te-la abandonado e fugido.
Há quatro anos, a familia Henderson se desestruturara –
primeiro, Travis desaparecera. Depois, a mãe some, deixando o
jovem Hunter, que é quase adotado pelos tios. O casal (Walt e
Anne), carente de filhos, o adotam com muito carinho. O garoto Hunter
preenche um vazio na relação conjugal dos tios. A volta
de Travis irá significar um novo contato com o filho e a busca
para reencontrar a mãe (além disso, abre uma crise conjugal
entre Walt e Anne, casal solitário, sem filhos – Anne diz:
“Do que vai ser da gente se perdermos Hunter?”).

O filme “Paris, Texas” é, deste modo, a odisseía
de uma tentativa de “reconstrução” do lar
desestruturado. Mas – como dissemos – não se trata
de uma reconstrução passadista: o pequeno Hunter volta
para a mãe, mas Travis prossegue sua odisséia existencial.
É o lar possivel sob a terceira modernidade do capital –
mãe e filho. O homem-pai está obsoleto: o pai como Autoridade
estruturante da relação sócio-metabólica
do capital (e inclsuive, como metáfora do Estado-providência).
Sob a terceira modernidade do capital, invertem-se os papéis
clássicos. Temos o reencontro/retorno do “filho pródigo”,
que, nesse caso, é o pai perdido em sua angústia pessoal
(a “crise originária” interverte os papeis sociais
– o pai torna-se o filho e o filho é o pai – como
diz o ditado, “a criança é o pai do homem”.
Mais tarde, num depoimento gravado, Travis diz para Hunter: “Voce
mostrou quem eu era”. Isto é, ele é o pai). “Paris,
Texas” é um filme de candentes metáforas com a condição
pós-moderna.
Alguns detalhes do filme são curiosos: o pequeno Hunter, filho
de Travis, é aficcionado em astronomia. Relata para o pai, as
origens do Universo. É quase como uma metáfora de si.
Diz Hunter: “A Galáxia inteira, todo o Universo, estavam
comprimidos num pontinho deste tamanho. E sabe o que aconteceu? Fez
assim e explodiu...Faíscas em todas as direções,
saiu tudo voando para todo o lado e o espaço se formou. Era só
gás flutuando...” E prosseguiu relatando para o pai, as
origens da Terra. Enfim, Hunter é um aficcionado por cosmologia.
Ele usa jaqueta da NASA quando acompanha o pai na busca da mãe.
Eis a preciosa metáfora da presença distante de astros
fascinantes. O pai, a mãe, o lar – eis o verdadeiro Universo
de Hunter, composto de estrelas/imagens que estão presentes,
mas muito distantes. No filme, o momento em que o pequeno Hunter fala
da origem do Universo é a metafóra candente de seu drama
humano. O “big bang” da família de Handerson ocorrera
há quatro anos. De certo modo, o filme é o relato da origem
primordial da “nova Terra”, após o cataclisma originário.
Outra cena de “Paris, Texas” onde existem metaforas com
tema astronômico, é quando Hunter, ao ver o video em super-8
de cenas familiares de seu pai e mãe, juntos, sabe que aquilo
é apenas um filme do passado, imagens distantes, como das estrelas
no céu. Diz: “Há muito tempo, numa Galáxia
muito, muito distante..” (mote de abertura da saga “Stars
Wars”, de George Lucas).

Mas é na relação primordial de Travis com sua mulher,
Jane – interpretada no filme pela bela Nastassja Kinsky –
que encontraremos elementos do enigma crucial do filme: fascinação
e desejo; ciúme e possessividade; fantasias inconscientes, e
incomunicabilidade. Na verdade, Travis vislumbrara a cruel impossibilidade
de ser amado intensamente pela mulher desejada: a jovem Jane não
o ama como ele a deseja. E pior: ao nascer o filho Hunter, ela se transtorna
e ameaça abandoná-lo. Enfim, a diferença de idade
(ela é bem mais jovem que ele), diferenças cruciais de
perspectivas de vida e de afeto, a candente imaturidade de uma paixão
fugaz, implode a intensa e alucinada relação afetivo-conjugal.
Por
um lado, Jane, jovem ninfeta, lolita deslumbrada com o desejo e paixão
por um homem mais velho, que lhe transmite, talvez, segurança
e afeto. Ela se casara aos 17 anos e ele provavelmente devia ter, na
época, pelo menos, uns vinte anos a mais. Como ele, à
época, ela possui também suas fantasias inconscientes.
Jane era tão imatura e perdida quanto ele.
Pode-se dizer que o nascimento do filho Hunter significou a negação
do casal e a constituição da familia enquanto novo universo
existencial. A chegada do jovem rebento, elemento primordial que deu
origem à familia, abalou, com certeza, a precária relação
conjugal marcada pelos sentimentos de intenso desejo e contínua
aventura (diz Travis sobre o casal: “Até uma visita a uma
mercearia era cheia de aventura. Estavam sempre rindo de qualquer bobagem”;
e mais adiante observou: “...eles não ligavam muito para
mais nada, porque tudo o que queriam era ficar juntos”).
Na verdade, Jane não estava preparada para a maternidade (ou
condição de mãe) e Travis, era um homem despreparado
para o laço afetivo com uma jovem ninfeta. Foi o nascimento de
Hunter que explicitou, de forma heuristica, as precariedades afetivo-existenciais
do casal Henderson, expondo os fantasmas inconscientes que consumia
o estranho casal.
Numa das cenas finais do filme (a cena do peep-show), Travis
relata para Jane, na terceira pessoa do plural, o que aconteceu com
eles. Diz ele que, após casar com Jane, o próprio trabalho
era obstáculo à sua vida afetiva. Ele a desejava de forma
alucinada. Era um homem de meia-idade fascinado pelo jovem ninfeta.
Diz ele, a respeito de si: “Ele não podia suportar ficar
longe dela, quando ia trabalhar. Então ele pediu demissão”.
O casal passou a ficar atormentado pela falta de dinheiro: “Ele
sabia que tinha que trabalhar para sustenta-la, mas não suportava
ficar longe dela. E quanto mais longe ficava dela, mais louco ficava.”
Era, de fato, uma loucura do desejo que consumia Travis. A seguir, veio
a loucura do ciume: “Começou a pensar que ela estava vendo
outros homens”. Na verdade, Travis queria uma prova de amor. Era
era um homem inseguro. Quando ela disse estar grávida, ele viu
nisso a prova de amor: “Estava convencido de que ela o amava,
porque estava grávida dele”. Ele se dedicou a trabalhar
para criar um lar para ela.
Entretanto, segundo Travis, com o nascimento do pequeno Hunter, ela
começou a mudar. Desvelaram-se os fantasmas inconscientes de
Jane. Ele demonstrou ser uma jovem imatura para a materinidade. Diz
ele: “Depois que o bebe nasceu, ela começou a se irritar
com tudo ao seu redor. Ficava louca com tudo.” Durante dois anos,
Travis lutou para que fossem unidos como no começo. Finalmente
ele percebeu que não dava mais. Diante do fracaso familiar, Travis
começou a beber. Por outro lado, ela o acusava de mante-la presa,
de te-la engravidado. A jovem Jane estava alucinada. O casal se dissolvia.
Diz Travis: “Ela sonhava em fugir. Era seu único sonho:
fugir”. Mas, Travis buscava impedi-la com esforço. Chegou,
segundo ele, a amarra-la no fogão com seu cinto. Ela gritava.
Mas, de repente, num certo momento, diz ele, algo mudara: ele não
sentia mais nada. “Tudo o que queria era dormir. E, pela primiera
vez, ele desejou estar longe dali, perdido num país imenso, onde
ninguém o conhecesse. Algum lugar sem lingua...ou ruas..”,
observou ele. Agora, era Travis que surtara. Enfim, abandonara Jane
e o pequeno Hunter. Fugira.
Eis o casal Henderson – uma jovem ninfeta imatura, que se torna
mãe; e um homem maduro, quase de meia-idade, inseguro e ciumento,
que vive o crespusculo do macho e que encontra na jovem ninfeta uma
nova (e precária) (i)razão de ser. Como nos mostra a foto
abaixo, onde o Wenders faz um jogo de reflexos onde a face de Travis
se confunde com o rosto de Jane, no espelho do peep-show, há
uma certa identidade (e não-identidade) reflexiva entre Travis
e Jane. Um é parte da insensatez do outro. Nesse caso, a crise
conjugal confunde-se com a crise existencial de Travis e Jane. Uma é
parte da outra. Fantasmas inconscientes conduzem os pais de Hunter.
Tanto Travis quanto Jane fecham-se em si – abandonam o jovem rebento.
Primeiro, Travis e logo a seguir, Jane (ela diz que abandonara Hunter
porque “ela não tinha o que sabia que ele precisava”.
E disse: “Eu não quis usa-lo para preencher meu vazio”).

Mas “Paris, Texas” é, de certo modo, o filme da crise
do homem burguês, homem maduro em crise, drama do crepúsculo
do macho da civilização patriarcal. O que se coloca, desde
o principio, é a crise existencial de Travis. Talvez, a própria
escolha da esposa, uma jovem ninfeta, adolescente imatura, como objeto
de desejo e mãe de seu filho, é sintoma irremediável
da loucura (e alucinação) de um homem de meia-idade. O
que se sucede a posteriori, como um “big bang”, é
resultado fatal da “falha primordial” do homem Travis.
Mais tarde, a presença de Hunter (que em inglês significa
“caçador” - caçador dos pais?) contribui para
o (re)encontro de Travis consigo mesmo. Talvez, ao buscar cativar o
filho, Travis vise constituir um novo ponto de partida para si mesmo.
O filho é o “starter” do pai. Mas, na verdade, Travis
quer reencontrar a mulher para liga-la de novo ao filho. “Paris,
Texas” é um filme de reconstrução da utopia
familiar possivel. Ao reencontra-la, Travis decide prosseguir adiante.
Não há lugar para o pai no novo universo familiar.
Há uma cena curiosa em “Paris, Texas”. Num certo
momento, quando Travis vai encontrar Hunter na escola, um amiguinho
pergunta a Hunter quem é ele, que diz ser seu pai. “Como
é que pode ter dois pais?”, diz o amiguinho. E Hunter diz:
“Acho que tive sorte”. Aliás, o jovem Hunter vive
uma situação paradoxal – na verdade, ele não
tem nenhum pai (Travis, ainda não encontrou sua identidade como
pai e Walt, diferentemente de sua mulher, não almeja ter um filho).
Wim Wenders se recusa ao final feliz convencional. O filho reencontra
a mãe, com a ajuda do pai. Mas Travis prossegue, indo adiante,
na sua odisséia pessoal. Diz ele para Hunter em seu depoimento
gravado: “Tenho a obrigação de unir vocês
de novo. Mas não vou poder ficar com vocês.”. Travis,
o homem-pai perdido, pai obsoleto, retorna para unir mãe e filho,
mas não consegue ficar. Não há mais o casal, o
“pontinho” primordial que explodiu no “big bang”
e que deu origem ao Universo de Hunter. Travis está envolvido
com o passado-morto, morto-vivo. Diz ele: “Eu jamais poderia consertar
o que aconteceu. É assim que tem que ser. Mal me lembro do que
aconteceu. É um vazio. Mas ele me deixou sozinho de um jeito
que não superei. E agora estou com medo. Com medo de fugir de
novo. ”. Como o pistoleiro solitário Shane do filme “Os
brutos também amam” (de George Stevens, 1959), Travis,
segue em frente.

O filme de Wenders trata do tema da perda e da busca, mas o que encontramos,
no conjunto de personagens, são fragmentos humanos dispersos
no Universo social: o pequeno Hunter, a mãe, Travis e inclusive
o casal que adota Hunter (Walt e a mulher Anne) estão imersos
em relações insatisfatórias e inconclusas. Ao lado
da esperança jaz um feretro - feretro do mundo burguês–
diria Ernst Bloch.
Finalmente,
seria interessante apreciarmos o mundo social do filme “Paris,
Texas”. Se o drama intimista de Wenders se sobressai com vigor,
os detalhes sociológicos nos convidam a pensar o admirável
mundo novo do capitalismo da terceira idade. São imagens-estruturas
que consomem os personagens do filme. O mundo social de “Paris,
Texas” é um mundo social árido, como o deserto de
Travis. É o mundo americanizado, sociedade do fast-food e do
voyeurismo, universo social da não-comunicação
e da incomunicabilidade. O peep show onde Jane trabalha, é a
metafora de um universo social marcado pelas interações
humanas presentes e tão distantes – há milhares
de anos-luz. “Paris, Texas” é um filme da não-comunicação
ou da comunicação impossivel. Comunica-se por meio de
espelhos intransparentes (como no peep-show) ou por meio de depoimentos
gravados (quando Travis deixa a mensagem para o filho Hunter). A crise
humana em “Paris,Texas” é uma crise de comunicação.
Se o sujeito está negado, não há intersubjetividade
ou ação comunicativa.
É claro que a dureza social do filme aparece, logo de imediato,
na figura do médico que trata de Travis no interior do Texas:
homem egoista e duro, verdadeiro canalha que habita uma estalagem vazia,
perdida na aridez do deserto do Texas. Ele cuida de Travis, é
claro, mas com interesse próprio. O capitalismo endurece as pessoas,
fechando-as em si. A única personagem verdadeiramente humana
é a jovem empregada dos Henderson, imigrante mexicana, que ensina
Travis a se trajar como um homem rico. Na verdade, Travis quer parecer
um pai e cativar o pequeno Hunter.
Existe uma critica velada à racionalidade tecnológica
em “Paris, Texas”. O divagante Travis tem pavor do avião.
Não lhe interessa a pressa e a vida veloz que a tecnologia capitalista
promete. Não lhe interessa também a descartabilidade das
coisas – insiste em retornar no mesmo carro que Walt o encontrou.
Travis está um pouco deslocado do mundo social do capital.

Ora, “Paris, Texas” é o mundo social da mercadoria.
Ela é uma presença silenciosa, mas deslumbrante no filme,
por meio das marcas e dos produtos industrializados. Não há
presença do Estado no filme de Wenders, mas apenas do mercado
que subrepticiamente organiza a vida social. “Paris, Texas”
é um filme de imagens, enfim, do capital que se fez imagem-espetáculo
(a própria Jane é uma vigorosa imagem de mulher, imagem
do desejo que seduziu Travis...). O filme de Wenders é um retrato
do mundo de imagens: da profissão de Walt (Walt Disney?) que
produz outdoors; ao serviço de entretenimento do “peep-show”
(imagens em espelhos “falsos” que fascinam e prometem prazer);
da velha fotografia do lote vazio em “Paris, Texas”, única
imagem-referente do local onde Travis foi biologicamente concebido;
do velho álbum de fotografias familiares que ainda restam; das
inúmeras fotos e gravuras penduradas nas paredes da casa de Walt
e Anne; e finalmente, do vídeo em super-8 que registra lembranças
familiares de um passado distante.
O mundo social do filme “Paris-Texas” é a sociedade
da mercadoria em sua fase de espetacularização problemática.
Guy Debord nos fala da “sociedade do espetáculo”,
mas o que Wenders constata é que o espetáculo da mercadoria
é um espetáculo angustiado, verdadeiro anti-espetaculo.
Talvez seja o outro lado do espetáculo em sua etapa de crise
estrutural, com fragmentos humanos dilacerados, poeiras cósmicas
no universo do capital. Nada se resolve no filme “Paris, Texas”.
Há uma sensação de vazio – embora tenhamos
simpatia pelos tipos demasiadamente humanos (Walt, Anne, Travis e o
jovem Hunter). Ainda há humanidade nos personagens de Wenders
em “Paris, Texas” (Travis resiste, a seu modo, à
banalização do prosaísmo burguês).

Em “Paris,Texas”, o mundo do trabalho é o mundo dos
serviços como atividade mercantil. É preciso observar
com cuidado para apreendermos o mundo do trabalho do filme de Wenders.
É o mundo do capitalismo hiperindustrial desmaterializado. Tudo
tornou-se mercadoria. A indústria desmanchou-se no ar. Tornou-se
éterea. Os serviços industrializaram-se. Do fast-food
à empregada domestica mexicana (talvez agenciada por empresa
de trabalho temporário). O mundo do trabalho está nos
intersticios que compõem o metabolismo da vida social. Por exemplo,
as profissões de Walt e da mãe de Hunter lidam com a indústria
da imaterialidade reflexiva, isto é, com a indústria da
“captura” da subjetividade por meio de imagens-fetiches
(seja do out-doors ou do peep-show que seduz). É curiosa a imagem
do banco “drive-in” em Houston, banco sem bancários,
meras estruturas urbanas onde circulam veículos cujos clientes
manipulam, estilo self-service, aparatos informáticos. Não
vemos pessoas em “Paris, Texas”, mas apenas estruturas em
paisagens áridas (do urbanismo hipermoderno ao deserto agreste
do interior do Texas). É a concretização da modernidade-máquina,
da vida urbana de aço, concreto e vidro, reluzente com o néon,
marcado pela aridez e pelos grafittis que buscam dar algum sinal de
vida à paisagem cinzenta (Travis entra pelos fundos no local
de trabalho de Jane, um peep-show em Houston. É curiosa a fachada
com grafiti da Estátua da Liberdade, demonstrando que, em Wim
Wenders, há uma critica visceral da modernidade americanizada).
Um detalhe: Hunter, o filho de Travis, possui algo da tragédia
de “O Garoto”, de Charles Chaplin. Primeiro, na aparência
física; segundo, o fato dele ser, tal como o garoto, filho abandonado
pelos pais e que fica sob os cuidados de outros. Ora, Wenders retoma
o tema da “criança abandonada” como tema principal
das narrativas da crise da sócio-reprodutibilidade do capital.
Giovanni
Alves
(2008)
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